Capítulo 4


Capítulo 04
Não Pare de Acreditar

Uma nova manhã se iniciava em Kalos. Poucas nuvens surgiam no céu desta vez, e o tempo estava quente. O trio havia chegado na primeira cidade após Vaniville, Aquacorde. Era uma cidade pitoresca. Era pequena, não possuía atrações para algum treinador visitá-la, mas para Serena era ótima, já que precisava se acostumar com o movimento aos poucos. Estavam sentados em uma mesa na parte mais alta da cidade, observando a visão ao seu redor.

De lá conseguiam avistar as casas que a compunham, um rio que a cortava e trechos da Floresta de Santalune. Calem queria fazer tudo menos passar por aquela concentração de natureza. A última coisa que desejava era ficar em contato com árvores, umidade e Pokémons selvagens.


Na mesa estavam os primos Windsor lado a lado, e do outro Charlie e seu Pancham, que encarava tudo de maneira emburrada, embora não estivesse. Calem parecia incomodado com aquilo, mas evitava comentários. Serena quebrou o silêncio:

— Vocês dormiram bem na noite passada? — indagou, sorridente.

O dia estava quase tão bonito quanto a Serena.Um sol lindo, uma ótima noite de sono em uma cama do Centro Pokémon, uma cidade tranquila para aproveitar... É claro que eu não consegui aproveitar nada, porque o Calem é um chato.

— Dormir bem? Essa é boa! — respondeu Calem. — Tive que colocar um plástico encima daquela cama para não pegar germes das outras inúmeras pessoas que dormiram lá. E fiquei a noite inteira acordado pensando se esse... Ser... Não ia dar o golpe em nós. — e apontou para Charlie.

O rapaz riu.

— É, percebi você me observando. — admitiu. — Achei que estava me admirando, mas pelo visto me enganei.

Agora era Serena quem ria.

— Engraçado. Uma graça. Não consigo parar de rir. — ironizou. — E esse seu Pokémon, ele não entra na Pokébola? Ele também ficou me encarando a noite inteira.

O rapaz se esticou na cadeira e depositou as costas no encosto.

— O Thanos não tem Pokébola, na verdade. — explicou de forma simplista.

— E ele não foge? — questionou a garota, surpresa.

— Não, não. Quando os laços entre Pokémon e treinador são fortes, não há essas neuroses. — brincou. — Dizem que Pokémons vira-latas são mais fiéis, e digo em primeira mão que é verdade.

A menina ficou admirada ouvindo as palavras do rapaz. Mesmo que Charlie parecesse ser alguém ruim, cada vez mostrava mais ser uma pessoa boa, e em sincronia com seu Pokémon, algo que ela adoraria ter com seu Espurr. Calem, entretanto, não parecia tão surpreso.

— E de onde teve a magnífica ideia de andar com seu Pancham sem ter Pokébola?

— Nem todos têm dinheiro para comprar Pokébolas, sabe? Elas costumam ser bem caras. — respondeu, deixando-o corado.

Serena se levantou da mesa levemente e se virou para os companheiros:

— Vou pedir algo para beber para nós. Querem alguma coisa? — perguntou.

— Qualquer coisa que você quiser está bom pra mim, princesa.

— O mesmo.

— Tudo bem. — disse. — Volto já, tudo bem?

E saiu saltitante para comprar algo para refrescá-los. Calem aguardou ela se afastar e cruzou os braços, lançando um olhar desafiador a Charlie, que respondeu com um sorriso. Pancham continuava fitando a cena de forma mal encarada. O rapaz apontou o dedo para o outro:

— Você pode até enganar a minha prima, Charles. Qualquer um pode, na verdade. — disse de forma séria. — Mas você não me engana.

— Não é o que sua mochila me diz. — deu de ombros, levantando o pertence.

— O quê? Quer parar de fazer isso? — reclamou, pegando o objeto de volta . — Você pode vir com seus papinhos de sincronia e amizade, mas eu sei o que quer.

Pancham se moveu um pouco, como se estivesse pronto para atacar a qualquer momento.

— Tudo bem, eu mesmo digo. — respondeu o menino mudando o tom de voz. — Vivo dormindo nas ruas das cidades ou em rotas, e sabia que andando com vocês eu teria direito a camas e refeições boas. Acertou?

Ele olhou de forma incomodada.

— Na verdade esse era meu segundo palpite. Pensei que você queria a Serena, mas isso é ainda pior! — exclamou. — Então você está nos usando.

— A verdade é que passei a gostar de vocês, sim. Ou melhor, dela, porque você é um pé no saco. Mas e daí? Ela é uma menina muito legal, quero continuar conhecendo ela. E se inclui andar com você, eu aguento.

— Mesmo? — semicerrou os olhos. — Olha, também não gosto de você, Charles. Se quer saber, por mim você poderia seguir seu caminho e eu não me incomodaria nem um pouco.

— Ah, Calem, cheira o meu peido. — praguejou ele, empurrando a própria cadeira para trás e se espreguiçando nela. — O que vocês fariam sem mim? Você hoje tentou se enforcar com os cadarços do sapato. E não sabia fazer uma forca. E a Serena me perguntou o que era beijar alguém.

— Os canais da televisão eram bloqueados. Um dia descobri a senha, mas me arrependo profundamente de ter visto aquelas cenas sujas e repugnantes. — disse com repudia. — Mas isso não vem ao caso. Só porque aceito sua presença, não significa que eu goste.

— Igualmente. — concordou Charlie.

No mesmo instante Serena voltou, com três copos plásticos e uma garrafa de suco de alguma Berry. A menina se sentou, e ambos continuaram se encarando, mas disfarçaram.

— Oi meninos. Sobre o que falavam?

— Oi lindinha. Eu e o Calem estávamos dizendo que vamos começar a nos dar melhor de agora em diante. — mentiu, lançando um sorriso falso a ele, sendo retribuído por outro.

Ela se iluminou.

— Que ótimo! Fico muito feliz, muito mesmo. — disse, apalpando os bolsos. — Só que acho que perdi parte do dinheiro no meio do caminho, não tinha tudo o que eu levei.

Charlie a cutucou, fazendo-a o olhar, revelando um montinho de notas de dinheiro.

— Talvez você nem tenha levado. — brincou, jogando para ela de volta. — Se quer uma dica, nunca ande por aí com muito dinheiro ou deixe ele muito à vista. Combinado?

— Bobo. Combinado. — disse, sorrindo.

Aquele sorriso, cara! Impossível um mais perfeito! Era uma pena que fosse tão inocente. A verdade é que depois de conhecê-la me senti na obrigação de protegê-la desse mundo. Nenhum dos dois sabe como ele pode ser cruel e assustador de vez em quando.Eu era o responsável por não deixar aquela garotinha feita de cristal se quebrar em mil pedaços.

— Eu estava pensando… — fez uma pausa, se dirigindo a Charlie. — Podemos tentar fazer uma batalha? É essa a forma correta de convidar?

Ele olhou para Pancham.

— Tem certeza? Digo, se você quiser, eu estou de acordo.

— Quero treinar o Espurr para sermos tão fortes quanto você e o Thanos! — ela respondeu empolgada.

Após concordar, finalizaram o suco e desceram para a parte mais baixa da cidade, próximos a uma pequena fonte. Algumas pessoas estavam na janela de suas casas e passaram a observar aquele grupo curioso que se preparava para algo.

Charlie explicou as regras básicas de uma batalha de rua — basicamente que não havia regras. — mas principalmente de como agir em uma batalha. Serena ouvia tudo atentamente, mas ao mesmo tempo ficava se chacoalhando de forma ansiosa para ter sua primeira batalha.

Pancham e Charlie se alongaram em movimentos sincronizados, e Serena pegou sua Pokébola e a atirou para o alto, lançando Espurr, que assustava as pessoas que andavam pela rua com seu sinistro olhar. O pequeno Pokémon ouviu as palavras que sua treinadora proferia para incentivá-lo, e vez ou outra respondia com miados.

Então os dois se puseram em posição para lutar.


— Damas primeiro. — pediu Charles com um gesto de cavalheirismo, fazendo Calem soltar um suspiro de desaforo.

— Ontem fiquei observando o Espurr fazendo uns movimentos, então acho que aprendi e consigo vencer vocês! — falou com confiança. — Use o Scratch!

A criaturinha avançou contra o Pancham, usando suas pequenas garrinhas para arranhá-lo, não causando muitos danos. Serena estava no auge de sua ansiedade, e Charlie a aplaudiu.

— Muito bom! Mas agora é minha vez. — interveio. — Tente o Tackle.

Desta vez Pancham quem correu contra o adversário, e o golpeou apenas fazendo uso do próprio corpo, investindo contra Espurr, que caiu no chão. O gato voltou a fitar o panda com aqueles olhos púrpuros macabros, mas este não hesitou, o que não se aplicava a Charlie.

 Scratch de novo! — pediu a menina.

 Tackle. — incentivou Charlie.

Ambos continuaram se golpeando simultaneamente com arranhões e investidas. Pancham atacava de forma mais leve, mas Serena não havia percebido isso. Estava tão empolgada que sequer reparara nos detalhes. Sua voz destoava a cada comando, como se a voz não conseguisse acompanhar a respiração acelerada.

Em um dos arranhões Pancham foi atirado no chão, e fingiu estar derrotado. Charlie aplaudiu novamente e foi em direção do Pokémon, o recolhendo e lançando uma piscadela para o mesmo. Em seguida voltou-se para a amiga, de forma tranqüila:

— Parece que você me venceu. Você foi ótima na sua primeira batalha! — parabenizou-a.

A menina abraçou o Pokémon, que mesmo cansado conseguiu comemorar em conjunto com a treinadora. Calem fez alguns murmúrios de desaprovação e se manifestou:

— Você deixou ela ganhar. — resmungou.

Charlie lançou um olhar fuzilador para o rapaz, como se fosse para esconder aquele detalhe. Fez um sinal com a cabeça simbolizando que era para apenas manter silêncio e continuou, com um tom de voz que mais parecia cuspir as palavras:

— É claro que não. Foi por mérito próprio.

— Seu Pokémon não usou toda a força que tinha. É óbvio que a vitória foi dada. — respondeu. — Se queremos que ela melhore, então devemos ser francos, e não falsos.

Serena evitou comentários, mas ficou um pouco decepcionada consigo mesma. Charlie cerrou os punhos de forma irritada, mas se segurou para não falar nada desagradável, principalmente na frente de Serena. Se limitou a desafiar o rapaz, como em um desenho animado:

— Me enfrente, então.

Calem engoliu em seco, como se não aguardasse aquilo. Tentou discutir, mas percebeu que não havia motivos para. Pegou sua Pokébola e ficou a fitando por um tempo, até enfim lançá-la e ver seu Larvitar assumir o local. Aqueles que desfrutavam da manhã e observavam a batalha ficaram surpresos por ver aquele Pokémon de pose imponente nas mãos de um jovem.

Calem deu alguns passos para trás, o mais longe possível do próprio Pokémon, que permaneceu parado, mas fitou o treinador com desprezo. Na noite passada, Calem aproveitara a insônia para pesquisar mais sobre a espécie de seu Pokémon e descobrir todas as suas técnicas. Entretanto, aplicá-las na prática era uma coisa completamente diferente.

— Certo, Larvitar… Então use o Leer.

— Repita, Pancham.

Ambos se encararam de forma concentrada, como se tentassem se intimidar, mas não obtivessem sucesso. Continuaram como dois guerreiros que se provocavam, apenas se preparando para o pior, mas sem ação. Calem prosseguiu:

 Bite. Faça alguma coisa.

 Arm Thrust.

Com a aproximação do Larvitar, Pancham o empurrou de forma brutal, causando grandes danos e com força suficiente para fazê-lo cair dentro da fonte e ser derrotado. Calem fitou o próprio Pokémon, e se aproximou ao vê-lo completamente inofensivo e derrotado, por sua culpa. Retornou-o para dentro da Pokébola e encontrou os olhos esverdeados de Charlie.

O silêncio prevaleceu, mas Serena tentou quebrá-lo unindo os dois segurando a mão de cada um.

— Foi uma ótima batalha, Cal. — disse. — Para uma primeira…

— Não foi boa, Serena. — respondeu, se retirando.

Seus passos no piso de pedra de Aquacorde eram suaves e lentos, e voltou ao Centro Pokémon. Os dois o fitaram entrando na construção de forma mansa como ainda não havia demonstrado. Mesmo Charlie se sentiu um pouco mal por aquela atitude do rapaz, independente do por que fosse.

...

O crepúsculo fazia os postes e as casas acenderem suas luzes. Algumas pessoas aproveitavam a noite fresca para sair, mas outras apenas ficavam dentro de suas respectivas moradas deleitando-se da tranquilidade da pequena cidade. Serena e Charlie estavam na pequena ponte, observando as águas correndo pelo rio que cortava Aquacorde e a Floresta de Santalune.

Charlie se depositava de frente, com os braços entrelaçados e o corpo se apoiando. Serena permanecia de pé, segurando o apoio com as duas mãos, e o olhar perdido. Não conversara com Calem pelo resto do dia, e aquilo a incomodava.

— Foi mal por ter vencido ele. Acho que deveria tê-lo deixado ganhar. — admitiu Charlie, com um sorriso um pouco debochado.

— Não, digo em primeira mão que não seria legal. — respondeu ela com um risinho. — Mas eu ainda vou ganhar de você mesmo com você dando o seu melhor!

Ele tirou os olhos do rio e encarou os de Serena.

— Você também vai ser uma treinadora, então?

— Por que eu devo me limitar a apenas uma carreira? — ela riu e virou-se de costas, encarando o céu tingido de laranja. — Eu quero ser de tudo um pouco. Quero treinar, criar, pesquisar… Quero fazer de tudo um pouco.

— Engraçado, sou o oposto, eu quero fazer nada. — ele riu.

— O que eu mais quero é encontrar a minha mãe. — disse Serena voltando a fitar o movimento das águas, com um tom mais sério. — Não sei quem ela é ou onde está, mas quero encontrá-la e vencê-la. Acho que ela é uma treinadora, ou algo do tipo. E quero derrotá-la.

Ele se aproximou da menina e tocou seus cabelos louros. Ela corou com a aproximação, mas ele tinha apenas uma expressão admirada no rosto. Um sorriso sincero. Sua voz soou de uma forma que Serena adorou ouvir, como se pudesse escutá-la o dia inteiro.

— Você tem enormes sonhos dentro de você. Eu gosto disso. Não pare de acreditar neles. Eu vou te ajudar a realizar cada um. Não pare.

Talvez eu tenha falado demais, porque ela deu um passo para trás de forma acanhada e decidiu mudar de assunto. Eu já havia estado em Aquacorde outras vezes, mas aquela era a melhor lembrança que eu tinha dela.

— A-Acho melhor irmos ver se o Calem está bem. — disse, voltando-se para o Centro Pokémon

Após dar alguns passos ela se virou de forma delicada e fitou os olhos de Charlie.

— Obrigada.

Sem trocar mais nenhuma palavra entraram no lugar desejado, as portas de vidro se abrindo automaticamente com a aproximação. Não havia ninguém naquele andar, apenas uma enfermeira de cabelos róseos e longos, presos em um penteado diferente.

Ela já os havia visto antes, quando fizeram a reserva de um quarto no dia anterior, então os reconheceu. Sua voz suave e delicada lançou um comentário após examiná-los.

— Vocês estão com aquele rapaz, Calem Windsor, certo? — indagou, lendo um papel antes de reproduzir o som do nome.

— O que ele fez de errado? — perguntou Serena de antemão, a fazendo soltar um riso rasteiro.

— Chegou uma carta a ele, e como estava hospedado aqui, fiquei encarregada de entregá-la. — disse, pegando um envelope bege e o depositando nas mãos pálidas de Serena. A menina examinou a carta, mas tendo em mente que não era a ela, se segurou para não abrir.

— Obrigada, enfermeira. Vou entregar para ele agora mesmo.

Passo a passo subiram as poucas escadarias que levavam para um andar superior. Todos os quartos estavam ocupados, pois não havia muitos treinadores hospedados. Antes de bater na porta do qual lhes pertencia, ela olhou para Charlie.

— É melhor você esperar aqui. Não é por nada não, mas…

— Eu sei. — concordou.

Serena deu três batidas suaves na porta de madeira e a abriu com calma. A janela estava aberta, dando uma vista para o sol se pondo ao fundo por detrás das colinas ao leste de Kalos. Ele usava luvas de borracha e tinha em mãos uma pequena escova de dente, a qual usava para limpar alguns móveis do quarto um por um, detalhe por detalhe. Ele não parou a tarefa, mesmo com a presença da prima. As luzes estavam apagadas, iluminadas apenas pelo astro que quase desaparecia do céu.

— O que você está fazendo? — perguntou.

— Limpando. — ele respondeu de forma direta.

A menina se aproximou e agachou como ele, para ficar em sua altura. Calem não desviava o olhar da tarefa, mesmo com ela tocando seu ombro e o encarando. A menina continuou:

— Você faz isso quando está lutando contra algum sentimento ruim. — lembrou. — Você sabe que isso não é saudável.

— Não tente me mudar.

— Por que você ficou chateado? Achei que não ia se importar com uma coisinha assim.

Ele parou a escova e fez o olhar cair.

— Eu resolvi ser um treinador, mas eu nem sabia como ou o por quê. Parecia uma coisa pra mim me ocupar enquanto te aguento… — mesmo bravo não poupava sua sinceridade. — Mas eu tenho medo de Pokémons. Como eu posso fazer algo se tenho medo dos meios que me fazem chegar a tal?

Serena não tinha a resposta. Era algo cômico, mas ao mesmo tempo trágico. Por sorte Aquacorde não era habitada por muitos Pokemons, estes normalmente ficavam na casa dos moradores, quando ficavam. A garota ficou em silêncio e se sentou na cama, com um olhar deprimido, tal como de seu primo.

— Dentro da nossa casa… Eu sempre achei que era o melhor, o destaque. Nas discussões, nos estudos, nos jogos… Mas parece que eu sou ninguém fora dela.

— Talvez isso o convença do contrário. — ela esticou o braço, com a carta em mãos.

Ele se virou pouco a pouco com suavidade, fitando o envelope.

— O que é?

Ela não respondeu, apenas mexeu a mão como se insinuasse para que ele a pegasse. Rasgou pouco para abri-la e leu em tom baixo, mas a menina conseguiu ouvir.


Caro Calem Windsor,

Por intermédio de sua família soube que és um jovem inteligente e promissor e, portanto, convido-o a vir ao meu laboratório em Lumiose para que possamos nos conhecer melhor, pois tenho certeza que teremos interessantes assuntos e informações a compartilhar. Saberá onde é quando chegar.

Aguardo sua visita,     
Professor Augustine Sycamore.

Ela sorriu.

— Como ele me descobriu? — indagou ele com a voz ainda para baixo.

— Estamos nos jornais. — respondeu ela, mostrando um exemplar que estava no criado-mudo.

No mesmo instante outra batida ecoou da porta, e Charlie quem entrou, desta vez.

— Eu vim pedir desculpas.  — antecipou.

Serena decidiu sair do quarto, e deixar ambos conversarem. Charlie prosseguiu, mesmo que Calem logo tivesse desviado o olhar novamente.

— Por ser meio incômodo algumas vezes. Sei que não nos demos muito bem a princípio, mas estou disposto a fazer o contrário. — disse.

Calem parou por um instante.

— Talvez eu tenha sido grosso também.

— Se quiser que eu vá, eu vou. — disse. — Não quero causar mais problemas.

Alguns segundos de silêncio depois, Charlie se virou e tentou sair do quarto, mas ao mesmo tempo que tocou a porta, ouviu a voz do menino

 — Fique. — disse. — A Serena precisa de você. — fez uma pausa. — E talvez eu também precise.

Charlie sorriu de forma amigável, e Calem tentou retribuir o sorriso, embora de forma meio desanimada. Em seguida se virou e continuou limpando o móvel com a escova de dente:

— Agora vá, o cheiro do seu cabelo faz meu estômago revirar.

Charlie riu. Ele estava de volta.

Ambos são garotos do interior, que querem acabar com a solidão e viver uma vida. Eu quero fazer parte disso. Percebi que tenho mais a oferecer do que a ganhar, e sinceramente estou disposto a fazê-lo. Eles são bacanas. A Serena é fantástica. Com aquela pequena conversa, o Calem voltou a acreditar. Serena nunca parou.E eu comecei.

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