Capítulo 8


Capítulo 08
Não Desistirei

Nuvens deslizavam pelo céu azul de Santalune, encobrindo o sol, que como sempre em Kalos, nunca era sinal de altas temperaturas. Na verdade, a temperatura estava propícia para que cada um vestisse aquilo que achasse confortável, nem frio nem calor excessivo. Um taxi passou pelas estradas de terra da cidade tradicional e estacionou na porta do ginásio local, onde uma loura de cabelos curtos saiu.

Ela retirou algumas malas do banco de trás e pagou o taxista, que logo a deixou sozinha naquele lugar. A moça virou-se de costas para o ginásio e fitou a tranquilidade ao seu redor, as crianças brincando na fonte, os idosos nos bancos alimentando Fletchilings que pousavam por lá. Não trocava a tranquilidade de Santalune pelo movimento das outras cidades. Em seu pescoço estava sua marca registrada: uma câmera profissional.




Quando se preparou para entrar na construção, notou um rapaz de braços cruzados batendo o pé insistentemente a cada meio segundo, com uma expressão de poucos amigos. Eles trocaram olhares por um instante, e ele checou um relógio em seu pulso, voltando a fitá-la logo em seguida:

— Você está sete minutos atrasada, senhora. — alarmou Calem.



Pontualidade é o mínimo para um cargo como de um suposto “Líder de Ginásio”. Quer dizer, eu mal sei o que eles fazem, mas como posso respeitar alguém que não segue horários a risca? Sete minutos são quatrocentos e vinte segundos, quatrocentos e vinte segundos do descumprimento de uma promessa de horários.

Ela assoprou uma mecha de cabelo que caía no rosto.

— Perdão, eu o conheço? — indagou.

Antes que pudesse responder, um grito agudo chamou sua atenção e a atenção do garoto:

—Viola-sama!!!!!! — falou Katheryn animada, correndo em direção da mestra.

Aldrick, Serena e Charlie a acompanhavam, mas apenas o primeiro cumprimentou Viola frente a frente. Os outros dois se juntaram a Calem na porta e a observaram. Aldrick se ofereceu para ajudá-la com as malas, e Katheryn se ofereceu para encher seus ouvidos com falas alegres e misturadas. A loura indagou de forma sutil, apontando com a cabeça:

— Eles são seus amigos?

Katheryn assentiu com a cabeça.

— São sim. O Calem é treinador, e veio para te desafiar a uma batalha! — adiantou ela.

Viola se iluminou por um milissegundo, e lançou um sorriso sincero quanto para o rapaz de cabelos castanhos, que não se incomodou em fazer o mesmo.

— Ora, será ótimo enfrentar alguém, para variar! — exclamou.

Era cedo da manhã, então Katheryn e Aldrick ainda não haviam aberto o ginásio, de forma que a própria líder o fizesse. O trio havia visto por dentro da última vez, mas não com tantos detalhes. Viola acendeu as luzes do ginásio, que sequer poderia ser chamado assim, deveria receber o nome de “Galeria de Santaluen”, pois não havia nenhum artigo de batalha.

As paredes beges recebiam iluminação especial de lâmpadas fluorescentes, viradas para vários quadros de tamanhos diferentes, bem emoldurados e envidraçados. Mas não tratava-se de pinturas, e sim de fotografias, na grande maioria de Pokémons insetos na natureza, capazes de fazer Calem ter arrepios apenas de olhar. Todas haviam sido pegas no momento certo, espontâneas.

Viola abriu uma das malas e tirou mais algumas fotos enquadradas, e colocou de volta uma a uma em lugares vazios em uma parede, como se estivesse colocando de volta. Serena se admirou com aquelas imagens, e sentiu vontade de vivenciar cada um daqueles momentos. Mas era estranho, pois era como se as fotos de Viola trouxessem uma pontinha da vivacidade do momento em que foram tiradas.

— Como estava a exposição, senhorita? — perguntou Aldrick.

A líder encaixou um dos quadros e se voltou para ele, com um sorriso de canto:

— Foi fantástica, simplesmente fantástica. — disse, arrumando uma das fotos que estava alguns míseros graus inclinada para a direita.

— Não sabia que líderes podiam ter um hobbie. — admitiu Serena de forma dócil. — Parece que vocês ficam batalhando o dia inteiro.

Viola convidou-os a se sentarem e tomarem um café em uma área mais reservada e respondeu:

— Ah, que nada. A Liga Pokémon está em uma verdadeira crise. — disse com simplicidade.

Ainda que não entendessem exatamente o que aquilo significava, forçaram-se a perguntar:

— Por quê?

— Porque as pessoas não querem mais batalhar. — respondeu a loura, fitando o líquido castanho escuro e quente dentro do copinho. — Quantas batalhas vocês viram desde que saíram em uma jornada?

Calem e Serena se entreolharam por um instante, e depois voltaram a olhar para a líder, que tinha uma expressão no rosto de alguém que já aguardava uma resposta específica:

— Tirando as nossas, nenhuma. — concluiu Calem.

— Exatamente. — disse, depositando o copo em uma pequena mesinha. — Kalos perdeu ainda mais a ânsia que as pessoas tinham por batalhar com Pokémons…

— Isso resulta em Pokémons abandonados, e líderes tendo dificuldades em pagar as contas. — completou Aldrick. — Portanto desenvolvem outros talentos. — olhou para as fotografias.

— Abandonados como o Thanos… — balbuciou Charlie.

Calem se levantou:

— Mas por que batalhas estão em baixa?

— Tivemos campeões formidáveis nas outras regiões em questão de pouquíssimos anos atrás… — afirmou Aldrick, fazendo uma pequena pausa. — Mas Kalos não teve essa sorte. Parece que as pessoas preferem coisas sofisticadas do que combates corpo a corpo. Moda, Concursos… Tudo isso ganhou mais espaço, enquanto as batalhas diminuem cada vez mais.

— Elas eram uma forma dos reis antigos se distraírem, com combates corpo a corpo sangrentos nas arenas. — disse Viola. — E com o tempo regras foram criadas, para a segurança dos Pokémons e daqueles que assistem, muito embora a Liga Pokémon não estabeleça tantos limites, assim como certos ginásios.

Aquilo era uma verdadeira chuva de informações. Serena ficou triste por um tempo, pois sentiu como se estivesse congelada no tempo, e finalmente quando era sua vez de aproveitar o que tanto almejava, as pessoas mudaram tudo. Calem parecia ainda mais confuso, embora compreendesse que as batalhas eram menos sofisticadas que outras competições.

— Isso é triste. — suspirou Serena com simplicidade.

Viola fitou Serena e pegou sua câmera do pescoço, empolgada:

 — Essa expressão de tristeza… Fantástico, simplesmente fantástico! — apontou o flash para a garota. — Diga “xis”.

Serena quase ficou cega com a luz forte, mas se limitou a soltar apenas uma risadinha. A líder admirou a foto por um instante, e em seguida voltou a encarar os jovens um tanto perdidos. Ela apontou para Calem:

— Mas e você, aonde quer chegar sendo um treinador? — perguntou.

Ele corou.

— Onde é possível chegar? — após fazer a pergunta percebeu certos olhares de desagrado. — O que foi? Eu nunca tive como saber isso, mesmo supostamente tentando ser um treinador.

Viola assumiu a fala:

— O cargo mais alto que um treinador ainda pode chegar é o Campeão, o verdadeiro defensor do título de “Mestre Pokémon”. — ela enfatizou as últimas palavras, como uma contadora de histórias chegando na parte emocionante. — O Campeão antes fora o responsável por governar o continente, mas na atualidade ele se limita a tomar as decisões e gerir as regras da Liga Pokémon. — explicou. — Ele é deposto do cargo quando derrotado em uma batalha oficial.

O rapaz levantou uma sobrancelha.

 — Então eu apenas devo derrotá-lo para conseguir o cargo? — indagou.

— Antes de chegar a ele — interveio Aldrick — você deve passar pela Elite dos 4, o quarteto mais poderoso de Kalos, que une forças de quatro elementos específicos para manter o posto do Campeão.

— Então tenho que derrotá-los primeiro…

— Mas antes tem que ser classificado na Liga Pokémon, onde vários treinadores poderosos batalham entre si! — adiantou Katheryn.

— Então tenho que ser o melhor destes treinadores…

— Claro que para chegar à Liga você precisa vencer oito dos ginásios de Kalos, comprovando estar apto a lutar entre estes. — confirmou Viola. — Agora entende o que faz aqui? Se me derrotar, você estará um passo mais próximo do Campeão, mas é uma jornada exaustiva.

Àquela altura Calem estava quase jogado no chão.

Como cumpriria uma caminhada tão pesada como aquela se ainda mal se entendia com seu próprio Pokémon? Era informação demais para sua cabeça, mas finalmente os panfletos que tentava ler da Liga Pokémon faziam sentido. Calem era um expert na teoria, mas a prática ainda o assustava.

— E, afinal de contas, por que decidiu se tornar treinador? — perguntou Viola se sentando com calma. — Não que eu questione sua escolha, muito pelo contrário, fico admirada em ver que alguns ainda almejam este sonho.

Ele olhou para os lados, encarando a expressão dos amigos.

— Eu não sei.

Foi quando quase todos se jogaram no chão simultaneamente.

— O que foi? Eu nunca disse que queria ser um, vocês que enfiaram palavras na minha boca. — falou ele.

— Mas você disse que tinha encontrado uma carreira que talvez fosse sua cara, treinador. — respondeu Serena.

— Não, eu disse que talvez tenha achado um objetivo, e não que seria um treinador. — corrigiu ele. — Você que falou isso. E começaram a falar de ginásios, insígnias, líderes, elite…

— Mas então o que você quer ser? — questionou Charlie.
Ele se levantou e olhou para o teto antes de falar, como quem se preparava para contar uma longa história.

— Eu queria ser um artista, e encomendei o Larvitar para me acompanhar, mas ele não pareceu muito a fim de pintar coisas. — falou. — Na verdade eu quase desisti da ideia quando percebi que precisava sujar as mãos com (urgh!) tinta. Achei que treinador fosse um sinônimo para artista no começo. — explicou ele.

Ué, se treinador era igual um artista, eu teria que seguir aquilo que eles me falavam, já que era, aparentemente, “menos experiente”. Todavia não tinha entendido o que aquelas aulas tinham a ver com arte, nem ginásios, nem batalhas… Agora fazia sentido, eu tinha me enganado.

— ME DEIXA DAR NESSE GAROTO, PORQUE ELE TÁ MERECENDO! COMO ASSIM KATE BERRY FOI DERROTADA POR UM PANACA QUE NEM SABE O QUE SIGNIFICA A PALAVRA “TREINADOR”? — gritava Katheryn sendo segurada por Aldrick.

— Primo, você pisou na bola. — Serena abaixou a cabeça e massageou a intersecção do nariz coma testa usando o indicador e o polegar. — Deixa eu ver se eu entendi… Você queria ser um artista… Mas começou a achar que precisava fazer as coisas que estávamos te falando…

— …E além de não querer ser treinador, descobriu que não quer ser artista…? — continuou Charlie.
— Basicamente.

— ME LARGA QUE EU VOU DAR UMA BOFETADA NESSA CARA DE PAMONHA DELE! — continuou Kath.

Aldrick interveio, os puxando.

— Acho que o Calem apenas se… Equivocou um pouco. — defendeu-o, ainda que sequer suas palavras carregassem muita convicção. — O que acha, senhorita Viola?

— Talvez seja melhor as batalhas serem extintas de vez mesmo. — balbuciou ela baixinho, vendo que Aldrick a encarava. — Hã? O quê? Ah, sim, acontece.

Todos se sentaram-se de uma vez só e ficaram encarando o chão, mergulhados num misto de incredulidade e “eu já deveria imaginar”. Até mesmo Serena não conseguiu esconder ter ficado surpresa com as confusões do primo. Calem quebrou o silêncio fatal.

— Bem, já que estamos aqui poderíamos… Tentar uma luta. — orou para que suas palavras trouxessem menos ódio àquele ambiente.

— Desencana. — disparou Charlie. — Não precisa fazer isso.

Calem parou.

— Eu adoraria concordar. — lançou uma expressão de contradição. — Mas tem alguém que quer fazer isso de verdade. — e apontou para sua Pokébola.

Ele suspirou.

— E além do mais… — após fazer uma pausa, aumentou o tom. — EU FUI ARREMESSADO POR UM ONIX, UM VOLTORB EXPLODIU COMIGO PERTO, FIQUEI NO MEIO DE UMA GUERRA DE POKÉMONS E RECEBI UM SOCO DE UM SER DESPROVIDO DE RACIOCÍNIO LÓGICO, PRA VOCÊ ME DIZER QUE FOI PRA NADA! MEU NARIZ AINDA ESTÁ SE RECUPERANDO, SABIA?

Ele marchou para o lado esquerdo.

— O que estão esperando? Me acompanharam até aqui, agora vão ter que continuar me seguindo.

— O campo de batalhas é do outro lado. — Viola apontou, tentando não fazer nenhum comentário antiético que a tirasse do cargo de líder, embora esta fosse sua vontade.

— Você vai mesmo? — indagou Kath.

— Estou há um tempo esperando alguém para batalhar… Estou aceitando qualquer coisa. — ela respondeu, caminhando em direção ao campo.



...

Após chegar a uma sala reservada, podia-se ver um pequeno poço com uma corda branca espessa e um tanto quanto estranha — teia. — por onde devia-se descer para chegar enfim ao campo de batalha. Era escuro e úmido, iluminado apenas por algumas luzes que apontavam direto no local de combate, onde o campo não era feito exatamente de concreto, terra, ou madeira. Era uma…

— Teia gigante. — ponderou Calem. — O material mais forte encontrado naturalmente. Seria fascinante se não fosse nojento.

Viola havia construído o ginásio unindo sua paixão pelos insetos e pelas fotografias. Aquele ambiente era propício para a criação de insetos por ser fresco, ainda que não tivesse tantas plantas. O campo era uma teia de tamanha espessura que praticamente impedia qualquer oponente de rompê-la, mesmo com golpes fortes. Caso a rompessem, ou caíssem, havia um chão cheio de folhas e musgo alguns metros abaixo.

Calem se sentiu completamente desconfortável naquele lugar, onde certamente várias de suas regras de como não se sujar ou pegar doenças eram infringidas. Katheryn, pelo contrário, gostava daquele lugar, do som dos insetos voando para lá e para cá.

Em cantos opostos da teia estavam extensões de madeira pequenas com um piso, onde os treinadores supostamente deveriam ficar para lutar. Enquanto Calem se sentia perturbado, Viola se preparava. Cutucou o rapaz no ombro, que levou um susto.

— Está pronto? — perguntou ela.

— Só uma dúvida: Como você, profissional em batalhas pretende ter uma batalha justa comigo, que acabei de começar? — indagou.

Ela sorriu.

— Você não possui insígnias, então uso Pokémons recém-capturados ou inexperientes. — disse. — Se apronte, porque eu já estou aquecida. — ela o fitou. — Esta expressão de nervosismo… Fantástico, simplesmente fantástico!

E fotografou-o.

— Agora trate de escolher seus Pokémons.

— Na realidade, usarei apenas um Pokémon. — ele respondeu, se recuperando do flash espontâneo.
— Mas Calem, é sua primeira batalha… — interveio Aldrick.

— Eu li o livro de regras de cabo a rabo, e o número de Pokémons para batalha estipula o máximo a ser usado, ou seja, posso utilizar quantos eu quiser desde que não ultrapasse o limite. Então, serei só eu e meu único Pokémon.

— Você leu um livro com o título “Regras para Treinadores Iniciantes” e não se deu conta de que isso não era para artistas? — questionou Charlie.

— Comecemos então! — exclamou a líder.

Viola pegou uma das Pokébolas e ficou ponderando-a por alguns instantes, como se estivesse sentindo novamente sua textura. Ela lançou a esfera para cima e revelou um pequeno inseto azulado, com pernas finas o suficiente para quase desaparecessem. De tamanho mínimo, aparentemente não demonstrava ser grande perigo.

Calem pegou sua Pokébola e sem atirá-la a fez se abrir e revelar Larvitar através da claridade que saiu da mesma. A criatura de pedra pisou na teia e percebeu que esta afundou um tanto devido ao seu excessivo peso, o que seria uma desvantagem. Larvitar já sabia do combate naquele dia, e o almejava mais que seu treinador. A líder, pelo contrário, pareceu fascinada com a escolha do iniciante:



— Eu costumo fotografar apenas insetos, mas terei que abrir uma exceção para seu Larvitar nervoso! — falou, puxando a câmera e tirando uma foto.

— Vamos nos concentrar, sim? — pediu Calem, com uma pausa. — Sandstorm.

Bubble, Surskit. — interceptou Viola.

Larvitar teria dificuldades em começar uma tempestade de areia no meio do ginásio que sequer areia tinha, mas antes de qualquer ataque, percebeu um raio de bolhas frágeis o atingindo, muito embora parecesse inofensivo, para o corpo de pedra como o Pokémon, causava mais danos do que gostaria.

— Bolhas, aquático, forte, pedra… Estou com problemas.  — deduziu Calem começando a arder em desespero, fazendo gestos sem exatamente saber o que fazer. — Tente mordê-lo.

Larvitar lançou um olhar rápido para o treinador da mesma forma ignorante de sempre, e em seguida voltou-se para o adversário, ainda assim tentando usar o golpe que lhe foi imposto, mas percebeu que o insetinho tinha grande facilidade de se locomover, enquanto Larvitar, com seu grande peso, era ainda mais lento na teia.

— Rápido demais. — exclamou Calem.

— Repita, Surskit. — comandou Viola.

Mais uma vez as bolhas atingiram o corpo de Larvitar, que pareceu se sentir ainda mais afetado, o que deixava claro que mais algumas vezes daquilo e estaria impossibilitado de continuar. Mas não, não seria vencido por uma criatura tão pequenina e inofensiva como aquela soltando bolhas.

— Use aquele golpe com pedras fortão!! — pediu Calem  ainda em desespero.

Ele fez pedrinhas levantarem-se desde o chão metros abaixo, e as disparou na direção de Surskit, que desta vez não foi capaz de se esquivar, e realmente saiu danificado com aqueles pedregulhos. Tiro e queda. O Pokémon se mostrou desmaiado.

Viola o encarou com surpresa, procurando palavras:

— Isso foi…

— …simplesmente fantástico? — ele retorquiu com confiança.

A mulher franziu uma das sobrancelhas e levantou a outra, retornando o Pokémon para sua respectiva Pokébola. Em seguida buscou outra dos bolsos e fitou o desafiante com o mesmo tom confiante:

— Você tirou as palavras da minha boca. — fez uma pausa rápida. — Mas ainda tenho um último Pokémon, Vivillon.

Da Pokébola saiu um Pokémon que fez os olhos de Serena brilharem, assim como os de Katheryn, que, mesmo conhecendo bem a criatura, adorava vê-la novamente. Um inseto de tons escuros e um olhar reluzente e uma feição um tanto quanto inocente. De suas costas saíam um par de lindas asas coloridas em tons de fúcsia e rosa, com traços dividindo simetricamente detalhes desenhados. Era difícil acreditar que alguém não projetou aquele par de asas perfeito, até mesmo Calem, sentindo certa repulsa, não ficou boquiaberto com aquela Vivillon.



Viola aproveitou-se da distração do adversário.

Infestation! — exclamou a líder.

Sem exatamente entender o que aconteceria, apenas focando em pontos onde os feixes de luz podiam ser vistos insetos de tamanho mínimo voando em bando na direção de Larvitar, o cobrindo por inteiro de forma incômoda, que o fez se debater para afastá-los.

— Larvitar, consegue se livrar disso? — pediu Calem.

Sem ouvir a resposta, o enxame retornou, fazendo Larvitar balançar as patas para afastá-los. Aproveitando-se mais uma vez da distração, Viola não deixou barato, gritando outro comando:

Struggle Bug, Vivillon.

Desta vez outros insetos pequenos vieram e atacaram em conjunto, causando certo impacto para que Larvitar se desequilibrasse naquele meio de difícil locomoção. Calem ficou sem saber o que fazer, pois sabia que restava pouquíssimo para que seu Pokémon fosse ao chão também, mas antes que pudesse fazer alguma sugestão, viu a criatura de pedra atacando sem seu comando.

Larvitar utilizou o Ancient Power, atirando pedregulhos novamente, desta vez contra a borboleta, que conseguiu desviar graciosamente de alguns deles, evitando maiores danos. Com o comando da líder, comandou que novamente os insetos viessem a atacá-lo em conjunto, e antes que pudesse se livrar deles, o enxame o provocou novamente.

— Eu não mandei você fazer aquilo!! — gritou Calem em repreensão.

Larvitar o ignorou e se preparou uma última vez para lançar seu golpe marca. Ele ficou alguns instantes apenas se concentrando, mirando em Vivillon que descrevia piruetas no ar com tanta facilidade como uma bailarina teria em terra. Sabia que era questão de instantes que fosse incomodado mais uma vez pelo enxame e perderia sua concentração, então aproveitou o quanto pode.

— Eu não mandei…

Antes que pudesse concluir a frase, Larvitar disparou contra Vivillon de forma certeira para que não conseguisse escapar. A força com que as pedras — mesmo pequenas — acertaram-na foi suficiente para causar um desmaio instantâneo.

Viola ponderou seu Pokémon caído por alguns instantes, enquanto Calem encarou o seu de pé ao mesmo tempo. A líder aplaudiu algumas vezes, quebrando o silêncio desconfortante do ginásio. Os amigos do rapaz a acompanharam, um pouco encabulados, pois viam que, na expressão do treinador, não havia um sorriso, e sim surpresa.

Larvitar caminhou com certa dificuldade para o lugar onde seu dono se encontrava, e o fitou com aqueles olhos amargurados. Calem tinha a Pokébola em mãos, mas nada fez. Ficaram apenas os dois, com um feixe dos holofotes iluminando-os, mas era como se tudo tivesse desaparecido por aquele momento.

— Você não me respeita… — as palavras de Calem carregaram certo rancor.

O Pokémon simplesmente esticou sua pata para a Pokébola e pressionou seu botão, fazendo com que ela o retornasse.

Mesmo que até algumas horas antes eu sequer sabia o que era um treinador ao certo, isso não era motivo para… Aquilo. Normalmente as pessoas não faziam aquilo comigo. Não ignoravam, nem… Desrespeitavam. Mas aquilo vindo de um Pokémon… Meu Pokémon… Não sei, simplesmente não sei.

...

— Devo dizer que para uma primeira batalha de ginásio você foi bem. — Viola exclamou, já na parte de cima do ginásio de volta, sem a umidade e sem a escuridão. Apenas o som de crianças brincando e a beleza das fotografias de Viola na parede.

— Por favor, poupe-me de suas palavras. — ele pediu, deixando o ginásio.

Serena e Charlie se entreolharam e o seguiram, correndo para encontrá-lo. Viola ficou encarando os três se distanciarem e apoiou-se na parede para descansar um pouco, soltando um longo suspiro:

— É a primeira vez que um desafiante faz drama depois de ganhar. — observou, com uma pausa. — Queria ter fotografado este momento.

— Viola-sama, eu também quero batalhar contra você! — pediu Katheryn.

A moça a fitou com certa curiosidade, observando aqueles olhos expressivos cheios de energia.

— Mas não por uma insígnia. — completou.

— Pelo quê então? — indagou ela.

— O que você falou… Sobre poucos treinadores… — ela não conseguia relaxar as mãos ao falar, então ambas se mexiam como se estivessem sem controle. — Eu quero ser um deles, quero ser um dos treinadores que não permitirão que as batalhas sejam extintas. — Kath disse com animação. — Quero incentivar os outros a batalharem também. Mas só poderei ficar livre se tiver concluído meu aprendizado, ou seja, derrotando você.

Viola puxou sua câmera e fotografou o momento, lançando um sorriso simpático:

— Que assim seja.

...

Calem encarava a fonte de Roselia, que disparava dois jatos grandes de água pela lateral. Ele encarava o líquido semi-transparente refletindo o céu, até ouvir seu nome ser chamado. Ele tinha as mãos brilhando de álcool gel, e as esfregava de forma sincronizada e incansável. Charlie se aproximou com Serena:

— Você ganhou, por que está tão dramático? — indagou o rapaz.

Calem lançou um de seus longos suspiros.

— Eu nem consigo controlar meu próprio Pokémon, não faço ideia do que faço numa batalha, e até o início do dia eu não sabia o que sequer era um treinador. — Serena poderia dizer que seus olhos lacrimejavam. — Eu não tenho por que tentar batalhar e manter o legado dos treinadores.

Serena encostou-se próximo a ele.

— Você tem sim, porque você é a pessoa mais apta que eu possa imaginar. — falou com sua voz dócil, de forma que Calem passasse a encará-la.

— Como assim? — questionou o rapaz.

— Você é chato, primo. — disse com uma risadinha. — Muito, muito, mas muito chato mesmo. Você é tão chato porque você sempre está certo, ou pelo menos quase sempre. — completou ela. — Você é persistente o suficiente para ser um treinador formidável, e racional o suficiente para vencer qualquer estratégia que possa ser inventada. — ela disse, com empolgação.

Calem revelou um pequeno sorriso.

— Então qual é o meu problema?

— O problema é que você quer achar lógica em tudo. — e fez-se uma pausa. — Saber o objetivo é vital, mas o que você está fazendo é aquilo que todos os treinadores deveriam ter feito para não serem extintos: Batalhar só por batalhar, sem ter um propósito. — ela encarava o céu tingido de laranja ao falar, demonstrando certa empolgação.  — Não batalhar por fama, por insígnias, ou por um cargo. Batalhar porque se gosta. Mesmo que você não goste muito, você ainda o fez porque quis. Nós todos fizemos.

Ela uniu os três abraçando-os pelos ombros. Charlie encarou a garota com um expressão de “como você faz isso?”. Calem desfez seu sorriso e olhou-a naqueles lindos olhos:

— E quanto ao Larvitar? — perguntou.

Serena pareceu ter sido pega de surpresa, ou não tinha nada em mente para responder. Ela procurou em Charlie qualquer resposta, mas o moço manteve-se em silêncio. Não era um simples caso de desobediência, era uma definitiva falta de respeito do Pokémon para com o treinador. Como poderiam ser uma boa dupla sem tal vínculo que os unia?

— Você… — ela ensaiou as palavras e fez vários gestos, tentando procurá-las. — Você não vai conquistar respeito assim, de uma hora para outra. Eu acho que você precisa se abrir mais com ele. Todos os dias, antes de dormir, eu escovo os pelos da Espurr, e tento conversar com ela. Parece que isso funciona.

— Larvitar não tem pelos. — retrucou.

— Onde a Serena quer chegar — interveio Charlie. — é que vocês não passaram por momentos para se aproximarem, desde que você… Comprou ele? — ele olhou para Serena, que confirmou. — O Thanos sequer confiava em pessoas quando o encontrei, mas as circunstâncias depois de um tempo nos aproximaram. — aconselhou ele.

Calem pela primeira vez ouviu Charlie como realmente alguém mais experiente. Era verdade, precisavam de mais tempo para desenvolverem um vínculo maior, e Larvitar talvez passasse a respeitá-lo.

— O bom é que, segundo o Aldrick, — acrescentou Serena. — o próximo ginásio ativo está bem longe por enquanto, então você tem tempo. — ela parou de falar e lançou um sorrisinho. — A menos, claro, que você desista…

Calem os encarou, e viu os sorrisos de incentivo. O sol se punha ao fundo da paisagem, o céu tinha apenas alguns rastros de nuvens rasgadas espalhadas. Tudo parecia estar alaranjado naquela hora. O rapaz também lançou um sorrisinho em resposta:

— Não, eu não vou desistir. — ele respondeu, recebendo um abraço dos dois. — Sem contato físico, por gentileza. — os afastou. — Mas sim, não vou desistir. É hora de dar uma nova cara para estas “batalhas”, porque desta vez vou fazer do meu jeito. E o jeito Calem é sempre o jeito certo.

Os dois riram e voltaram a caminhar para o ginásio. Calem cutucou Serena no ombro.

— Prima, desde quando você ficou mais inteligente que eu? — perguntou.

— Desde que sou mais sensível. — respondeu ela, sorrindo.

E eu sabia que era verdade.
...

Ao chegarem no ginásio, se depararam com Katheryn, Aldrick e Viola deixando a área de batalhas para a galeria. A menina não parecia muito contente, pois tinha os braços cruzados e um bico formado pelos lábios.

— O que foi? — questionou Charlie.

— Kath ia batalhar contra a Viola apostando algo entre elas… — explicou Aldrick de forma vaga.

— E como foi, Kath? — perguntou Serena inocentemente, vendo Ald fazer vários gestos reprovadores.

— EU PERDI! — gritou ela, estressada. — Parece que todo mundo ganha do meu Spinarak lindinho, ele sempre sai voando por aí! — reclamou a garota. — Agora não vou sair em uma jornada porque ainda sou fraca!

  Viola fez uma expressão de como quem não tinha o que fazer.

— Foi uma boa batalha. — disse a líder.

Katheryn não pareceu muito convencida, e ficou de cara feia encarando o chão. Calem ficou em sua frente e tornou a fitá-la, de forma que ela se obrigasse a olhá-lo nos olhos.

— Que foi garoto, perdeu alguma coisa na minha testa?

— Você não é fraca. — Calem revezou o olhar para Serena e Charlie, que deram um aceno de cabeça. — Mas nós somos iniciantes, ainda temos coisas pra aprender. Eu odeio admitir isso, só que é a verdade. — fez uma pausa. — Você, Kath, tem uma energia… Contagiante. E perturbadora, diga-se de passagem, mas isso não vem ao caso. O que importa é que você tem tudo para ser uma das responsáveis por manter o legado dos treinadores. Eu quase invejo isso em você. — tomou uma cotovelada de Charlie. — Eu invejo isso em você. — corrigiu.

Os olhos dela brilharam.

— Calem-kun, isso é verdade? — indagou ela.

— Sinceridade seria meu sobre nome se não fosse Windsor. — garantiu.

— Espere, o quê? — Viola interrompeu. — Vocês são da família Windsor?

Serena balançou a cabeça positivamente com relutância.

— E eu os tratando assim, de qualquer jeito! Desculpem meus modos! — ela desculpou-se.
Serena franziu o cenho, mas disfarçou.

— Por favor, senhorita Viola, garanto que somos da mesma espécie. Não quero ser tratada diferente. — falou com doçura.

— Fale por você. — rebateu Calem. — As paredes estão um horror, suponho que elas deveriam ser brancas, correto? Parece que nunca foram limpas e…

— Primo…

— Desculpem-me. — pediu. — Enfim, Katheryn... Eu adoraria que você não desistisse, porque quero uma rival como você. Claro, será difícil fazer frente a minhas habilidades, mas vou adorar vê-la tentando.

Ela sorriu e franziu as sobrancelhas.

— Temos um trato então, mauricinho. — seu tom de voz mudou. — Mas ainda não posso sair daqui, não venci a Viola-sama.

Viola interferiu mais uma vez.

— Você está pronta, Kath. — ela sorriu. — Estar presa aqui é o que te impede de ser mais forte. Sei que você quer honrar os insetos de sua família, porém você precisa de Pokémons diferenciados para auxiliarem seu Spinarak. Como o Calem disse, você tem uma energia que te torna uma oponente curiosa.

Ela sorriu:

— Eu sei que sou tudo isso. — gabou-se.

Serena tocou seu ombro:

— Amanhã partiremos em direção da maior metrópole de Kalos, Lumiose. Por que você não nos acompanha? Você também, Aldrick. — virou-se para o loiro com um sorriso.

Ele titubeou.

— Aquela cidade imensa, com a torre? Não sei não…

— Ah, vamos, Ald! — incentivou Kath. — Aquele lugar parece tão legal, não podemos morrer sem visitar lá! Por favor, você mal sai de Santalune, e essa cidade não tem nada. Sem querer ofender, Viola-sama.

— Imagine…

— Então! — pulou. — Vamos, vamos vamooooos! Eu vou fazer minhas malas agora mesmo!

Ela saiu correndo para fora do ginásio, quase quebrando as portas de vidro ao bater nelas, antes de abri-las. Aldrick foi logo atrás dela, tentando se animar. Calem encarou Serena de volta:

— Por que você foi dar a ideia…? — perguntou.

Viola deu uma risadinha e encostou em seu ombro, puxando algo dentro de uma caixinha resguardada que parecia estar trancada havia semanas aguardando alguém para abri-la. De dentro dela, um pequeno símbolo feito de metal de um besouro cor de barro, com duas presas se conectando. Viola aproximou o símbolo de Calem, como se a oferecesse a ele.

— Isso é uma insígnia. — explicou ela. — São emblemas que representam sua vitória dentro de um ginásio. Essa é a insígnia Inseto, a comprovação por ter me derrotado no Ginásio de Santalune. É um prêmio seu por ter me vencido, e por não ter desistido. — ela se movimentou, oferecendo mais uma vez. — Pegue, é seu. Guarde-a com carinho, pois com mais sete destas você estará mais perto ainda do seu objetivo. — sorriu. — Este já é um belo passo. Continue assim, pois eu acredito em você.


Não sei explicar o que exatamente me ocorreu naquele instante. As palavras de Viola… Não sei. Será que eu também tenho mesmo sentimentos? Aquela insígnia representava um grande passo, o passo de um rapaz trancado em sua mansão por dezesseis anos que agora adotava um estilo de vida completamente diferente, e começava a obter frutos nisso. Claro, ainda tinha os grandes problemas com Larvitar, mas tudo ainda ficaria perfeito, porque eu acreditava em nós.

Viola puxou sua câmera, focando com um dos olhos em Calem com a insígnia.

— Este momento está… Fantástico, simplesmente fantástico!

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