Capítulo 9



Capítulo 09
Inocência
Após um café acompanhando Viola, a líder de Santalune City, estávamos prontos para partir. Ela não parecia muito contente em se despedir de nós, porque imagino que meu primo fora o primeiro desafiante dela em semanas. Eu gostaria de desafiá-la, mas acho que a Espurr ainda não tem experiência suficiente ainda, embora eu quisesse. Nossa próxima parada seria Lumiose, e para ser sincera, eu estava muito animada pra isso!



Lumiose parecia um sonho cada vez mais perto. A cidade mais famosa de Kalos, que reunia de tudo um pouco, a selva de concreto dos sonhos das pessoas. Os cinco jovens estavam a caminho dela, cada qual mais ansioso para a chegada da cidade repleta de apelidos — cidade das luzes, cidade do amor, cidade da elegância — a não ser por Charlie, o único que de fato já morou naquele lugar por grandes trechos de sua curta vida.

A Rota 4 do continente de Kalos era conhecida por ser uma das intersecções de Lumiose, mas não apenas por isso, era um amplo jardim adornado por flores de cores variadas, que vez ou outra atraiam Pokémons diferentes que viviam pelas redondezas, ou que apenas passavam pelo ambiente pitoresco. O clima estava agradável, ainda que discretamente um pouco mais quente que o normal.

Ainda estavam no começo da rota, porém mesmo assim era possível sentir a suave fragrância adocicada das flores no ar, o que fazia Serena se sentir cada vez mais ansiosa por passar pela bela rota, enquanto que seu primo estava mais do que pronto para chegar à cidade totalmente civilizada e industrializada.
Katheryn vez ou outra aproveitava para fazer uma brincadeira, ou saía correndo na frente. Foi numa destas distrações que pisou em falso, e sentiu uma dor instantânea em seu tornozelo esquerdo, a fazendo soltar um gemido abafado de dor, e se jogar sentada no chão. Todos se assustaram, e Aldrick correu para socorrê-la:

— O que aconteceu, Kath? — indagou, segurando em seu ombro.

Ela apoiou nele e tentou se levantar, mas caiu mais uma vez antes de, por fim, respondê-lo com a voz aguda desta vez contida:

— Meu pé está doendo. — respondeu ela. — Acho que pisei de mal jeito.

Calem começou a se desesperar, correndo de um lado para o outro. Cinco passos exatos para a esquerda, cinco passos exatos para a direita padronizados, quase ensaiados:

— Céus, e agora?! — perguntou-se. — Estamos no meio do nada, longe da civilização!! O que faremos?!!

— Calem, estamos a apenas alguns minutos de Santalune. — retorquiu Charlie coçando o queixo.
Sem dar atenção a ele, o rapaz deixou sua mochila no chão e começou a vasculhá-la. Entregou uma seringa na mão livre de Aldrick, e um mini serrote nas de Charlie. Os amigos se encararam com dúvida, e retornaram seu olhar para a expressão semi-confiante de Calem. Todos estavam quietos, até Charlie quebrar o silêncio:

— Calem, que merda é essa?

— Isso é um serrote. — respondeu com normalidade, apontando para o objeto, e depois apontando para Aldrick. — E aquilo um anestésico.

— O que você pensa em fazer com isso? — questionou ele.

— Eu não vou fazer nada. — disse, tocando-o suavemente pelos ombros e o empurrando para frente. — Você é que vai. Se amputar o pé dela, talvez…

— Ninguém vai serrar ninguém. — interveio Aldrick, ao ver o desespero na expressão de Katheryn. — Foi só uma torção, Calem. Pode se tranquilizar.

Ele pegou de volta seus pertences e os depositou na bolsa com certa dificuldade de fazê-los caber. Em seguida cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas, como se aguardasse uma solução, batendo o pé direito em um ritmo uniforme.

— E o que faremos? — perguntou.

— Vamos esperar o pé da Kath ficar melhor, e depois carregamos ela até o fim da rota. — disse Aldrick se levantando, com o mesmo tom de voz calmo de sempre. — Tudo bem?
Calem estava prestes a concordar, porém se interrompeu:

— Mas e se anoitecer? — disse, novamente entrando em desespero. — E se precisarmos dormir de novo no…Chão! Eu já estou ficando sem estoque de álcool gel!!

— As dezoito embalagens que você comprou ontem de noite já acabaram? — provocou Charlie com um toque irônico.

— Não me provoque, Charles. — respondeu o rapaz cerrando os olhos.
Um novo confronto se iniciaria, no entanto Charlie notou falta de sua amiga, e correu os olhos pelo lugar de forma superficial, a procurando:

— Onde está a Serena?

Após focar direito em movimentos não muito longe de onde estavam, percebeu a garota em meio a um conjunto de flores avermelhadas, com todo o cuidado e delicadeza para não pisar e esmagar nenhuma, embora fosse uma tarefa quase impossível. As plantinhas davam na altura de seus joelhos, portanto ela se abaixava para vê-las com mais detalhes, reparando em cada mísero milímetro projetado pela natureza.

Charlie caminhou até ela enquanto Aldrick carregava sua companheira para um local com mais sombra, onde pudesse descansar um pouco, mesmo sob seus protestos. Serena sequer percebeu o amigo se aproximando, até que ouviu sua voz chamar por ela de perto:

— Serena, o que você está fazendo? — indagou ele.

Ela o olhou nos olhos. Ele foi capaz de ver aquele brilho inocente em seus olhos, como de uma criança fazendo as primeiras descobertas:

— Olha quantas flores tem aqui! São tão cheirosas, Charlie, eu quero sentir o cheiro de todas elas! — pediu, cheirando uma por uma.

Ele formou uma expressão no rosto que sequer sabia definir. Charlie não sabia o que sentira naquele momento, ou nos demais momentos quando estava com Serena — seria piedade, por alguém tão puro e inocente?

A natureza é tão mais bela que eu imaginava. Sempre admirei as flores do meu jardim na mansão, mas olhá-las lá era algo totalmente diferente. Mesmo que alguém tomasse conta delas, ou organizasse aquela rota, ainda era trabalho da natureza que elas estivessem lá, sobrevivendo com sua delicadeza e beleza simples, mas cativante. As pessoas tratam com tanta simplicidade, não entendo isso. Como pode ser gerado algo tão perfeito como as flores, com um aroma capaz de relaxar a mente pelos curtos instantes em que sentimos sua doce fragrância invadir nossos narizes? Para mim é tudo tão fantástico…

Foi quando ia pegar uma das flores que notou algo acima dela.

Um bichinho mínimo, segurando o pistilo de uma das flores vermelhas que Serena analisava. A garota pôde vê-lo com clareza por alguns poucos instantes, só foi capaz de perceber seu corpo esbranquiçado e uma cauda esverdeada no lugar das pernas. Uma coroa pequena feita de pólen jazia em sua pequena cabeça. Era exatamente como as fadas dos livros que Serena lera.


Ambos se fitaram por curtos instantes, a menina revelando uma expressão adorável:

— Oi amiguinho. — cumprimentou com uma voz baixinha.

O pequeno largou a flor e saiu voando pelo ar, ou talvez flutuando fosse o termo correto. Era difícil dizer se era mesmo capaz de flutuar, ou se apenas era levado pelas correntes de vento. Ela o acompanhou com os olhos, sorrindo:

— Ei, volte aqui! — mandou.

A criaturinha fugiu fazendo um trajeto ensaiado pelo ar, enquanto a menina caminhava tranquilamente atrás dela, tentando conversar, embora não fosse muito bem compreendida. Porém, para ela aquilo era muito divertido. Charlie, que ainda estava próximo, ficou curioso:

— O que foi, Serena?

— Esse Pokémon, Charlie! — ela apontou com simplicidade, e o mesmo sorriso no rosto. — Eu quero capturar ele!!

Ele procurou um pequeno pontinho branco e movendo por entre as flores, e não pareceu muito surpreso. Uma tarefa simples, a seu ver. Ele fez uma referência a ela:

— Pode deixar comigo, princesa, atenderei a qualquer pedido que você quiser. — disse, alongando o pescoço. — Capturarei um Wailord se assim me for pedido!

— Por hora só este estará bom. — ela deu uma risadinha. — Mas pode deixar que…

Antes que pudesse terminar a frase, foi interrompida por seu primo, que àquela altura pegou uma parte do assunto

— É isso mesmo que meus ouvidos captam? — perguntou aos ventos, se voltando para o rival. — Dê o fora, Charles, eu sou o primo mais velho, eu atenderei a tudo que você quiser, Serena, é meu dever! — garantiu. — Vou capturá-lo para você, não se preocupe!

— Mas eu…

Teve início a competição mais cômica da vida de Serena.

Nenhum dos dois, mesmo com várias tentativas frustrantes, conseguia pegar Pokémon. Charlie corria de forma tão acelerada que ultrapassava-o, já que o pequeno descrevia parábolas no ar e movimentos artísticos, o driblando. Já Calem, com toda a sua habilidade de ser desengonçado, não conseguia correr direito para alcançá-lo, e menos praticidade ainda tinha para pegá-lo.
Ele parecia estar tendo convulsões.

 Calem parou de correr, fuçando algo em sua mochila;

— Hora de usar o mecanismo comum de captura, nada mais óbvio que isso. — pegou uma Pokébola.

— Você é louco? — indagou Charlie. — O bicho tem dez centímetros, você vai matar ele esmagado com isso!!

— Talvez isso também seja óbvio. — e guardou a Pokébola.

Charlie correu a ponto de ultrapassar a fada, e começou a soprar o ar entre os dentes, enquanto estalava os dedos baixinho:

— Pssssst, aqui, aqui. — sussurrou alternando entre o som e as palavras.

O Pokémon fada desviou, descrevendo uma curva completa no ar, dando um legítimo “olé” em Charlie, que descansou os braços nos joelhos, arfando. Calem também não parecia menos cansado.
Enquanto isso, Aldrick caminhava para perto de sua amiga, que repousava encostada em um arbusto e fitava os amigos com suas tentativas estranhas de captura. Ele se agachou para ficar de sua altura, tocando no tornozelo de Katheryn. Ela acompanhou o trajeto de sua mão com os olhos, e soltou um gemido de dor abafado ao sentir o lugar dolorido sendo tocado.

— Está melhor? — perguntou o loiro.

— Olha pra minha cara e vê se eu to melhor. — respondeu.

— Vou tomar isso como um “não”. — ele se levantou, suspirando, com as mãos depositadas na cintura.

Foi quando viu algo pequeno passar diante de seus olhos com considerável velocidade, e voltar logo em seguida, flutuando a alguns centímetros de distância de seus olhos. Lá estava o Pokémon fada. Ele deu um sorriso e ficou parado para não assustá-lo, apenas emitindo uma voz baixinha:

— Hm? Olá, pequeno. Mas que…

Só teve tempo de ouvir um grito provindo de dois garotos em sua direção, que mais pareciam uma manada de Tauros raivosos:

— SAAAAAAI ALDRICK!

Calem apenas ameaçou, mas Charlie de fato se atirou na direção do Pokémon, que escapou sem dificuldades. Infelizmente Aldrick não teve a mesma sorte, e foi quase esmagado pelo outro. Assim que conseguiu se levantar, o louro reclamou pela primeira vez:

— O que você pensa que está fazendo? — indagou.

— Você tava aí dando sopa e fiquei com vontade de me atracar em você. — ironizou Charlie. — Aquele Pokémon, eu preciso pegar ele.

— É Flabébé, uma fada. — respondeu, enquanto o via voando pelo ar. — Algumas fadas não gostam da companhia das pessoas, preferem protegê-las de longe.

— Thanos, me ajude a enfraquecer o Flabébé! — pediu ele. — Use o Arm Thrust!

Sem mais nem menos, o Pancham saltou para fora de uma sacola de pano que Charlie carregava nas costas.

— Esse bicho estava aí o tempo inteiro? — perguntou Calem.

— Eu já disse que não tinha Pokébola. Onde você achou que ele ficava? — respondeu ele como se fosse óbvio.

Porém, Pancham sequer conseguia alcançar o Flabébé, que flutuava. E quando quase dava um jeito de alcançá-lo, o outro era pequeno demais para ser empurrado no ar, o que concluía mais uma tentativa inútil de capturá-lo.

— Ótimo, gênio. — parabenizou-o Calem.

— Use seu Pokémon então. — respondeu ele, recebendo um olhar de reprovação.

— Apelou.

Flabébé, entretanto, saiu voando na maior velocidade que conseguiu, e se enfiou no meio das plantas, para que todos o perdessem de vista em meio às lindas e vermelhas flores.

Serena ainda estava em um canto reservado, olhando para as flores amarelas. Elas tinham um aroma diferente das vermelhas, ela percebeu. Mas ainda estava se decidindo qual das duas era mais bonita. Talvez ambas fossem lindas à própria maneira, não dava para comparar o melhor. Será que alguma coisa nesse mundo é melhor, sem uma referência precisa? Seus pensamentos foram cortados pela aproximação de seu primo e do amigo:

— Serena… Temos uma péssima notícia pra você. — disse Calem.

— O Flabébé… Ele fugiu. — completou Charlie.

Ela revezou o olhar para um e outro, mas não pareceu abalada. Ela deu um sorrisinho, respondendo:

— Tudo bem, meninos. Não precisam se aborrecer por causa disso. — falou, saindo de lá. Antes disso, se virou para eles com um aviso. — Só que eu também teria fugido se vocês tivessem corrido na minha direção assim.

Eles se encararam, e de fato perceberam que haviam assustado — e muito. — o pobre Pokémon.
Sem outras alternativas, todos se sentaram na grama (com exceção de Calem. Calem sentou encima de um pano, sobre um pano, sobre outro pano que estava sobre a grama.) e apenas aproveitaram aquele ambiente, enquanto Katheryn reclamava sobre sua dor no tornozelo. Os minutos se passavam, e no final das contas Calem descobriu que tinha uma pomada para luxação, apenas não sabia a utilidade. Aldrick esfregou o creme sobre a região da menina, que resmungou, mas aceitou.

— Está doendo? — perguntou Aldrick.

— Não. Um pouco. Aí tá um pouco. Tá bastante. Ai. Que droga, Aldrick, aí dói. DÓI, CARAMBA, para de passar essa droga de pomada no meu pé!

— Desculpe.

Calem encarou os amigos.

— Vocês já estiveram em Lumiose? Estou com grande receio desta cidade. — admitiu ele.

Aldrick balançou a cabeça, compreensivo.

— Eu também estou. — respondeu calmamente. — Para alguém que morou em cidades pequenas a vida toda, estar indo para a maior cidade de Kalos é assustador.

— Que nada, parece super (já disse que aí tá doendo, caramba!) legal!! Passei minha vida me divertindo em Azalea, mas aquero aventuras diferentes!! E nada melhor que uma cidade dessas! Quem sabe não encontramos um sonho pra você, Ald?

— Um sonho pra mim? — perguntou ele enquanto esfregava os restolhos da pomada nas próprias mãos, sem convicção. — Não preciso de um sonho.

— Nossa, você é entediante. Estou bocejando de conversar com você. — repreendeu-o. — Olha, imagina quanta coisa legal não tem pra fazer! Ouvi falar que você pode montar nuns Pokémons e sair cavalgando pela cidade! Imagina que chique!

— Andar montado nos Pokémons (argh) é opcional, não é? Diga-me que é opcional, por favor. — pediu ele.

— Acho que sim, Calem. Acho difícil ter um desses Pokémons pra cada habitante daquela cidade. — tranquilizou-o Aldrick. — Mas esta não é minha maior preocupação…

Calem balançou a cabeça.

— Germes. — concluiu. — Eu te entendo, admito que estou morrendo de medo disso, já que lá vai gente de toda Kalos, e tudo o mais.

Aldrick deu uma risadinha.

— Não, quem me dera fosse isso. — falou. — Grandes cidades trazem grandes perigos. Em Santalune quase todo mundo se conhece, então todos sabem quando tem algo errado ou alguém diferente. Mas numa cidade dessas…

Katheryn interveio.

— Vocês são uma dupla de covardes. Se alguma coisa ruim acontecer, eu desço o primas-de-Azalea-jitsu nos perigosos.

Os dois não evitaram uma risada pela maneira engraçada de falar.

— O que foi? Querem ter um gostinho por agora, querem? — indagou ela os desafiando, com os pulsos dançando no ar se preparando para uma luta.

Aldrick olhou de relance para Charlie e Serena, longes.

— Espero que vocês não me levem a mal — fez uma pausa, buscando as palavras certas. — aliás, me sinto até mal por julgar assim, porque normalmente sou o primeiro a condenar este tipo de atitude. E não é nenhum tipo de preconceito, nem nada, mas…

— Direto ao ponto, garoto. — interrompeu Katheryn fazendo gestos imitando estar girando uma manivela imaginária com a mão direita.

— Não sei o porquê, mas não confio no Charlie. — pareceu incômodo em proferir tais palavras. — Me sinto mal por isso, ele parece muito honesto, e juro que não é pelo fato de ele ter sido morador de rua em Lumiose… — novamente parou. — É só que parece que tem peças faltando. Ele é tão aberto que parece fechado. É como um livro de poesias aberto: Qualquer um pode ler, mas poucos entendem.

Calem bateu a mão fechada na palma da outra mão.

— Finalmente alguém me entende. — pareceu aliviado. — Serena inventou de confiar nele quando saímos em jornada, e admito que não pensei em todos os perigos em começar a andar com um estranho… Porém agora estou vendo como é idiota isso. Não durmo direito há dias com medo de ele nos fazer alguma coisa. Porque Serena é inocente demais para acordar para a vida, e eu sou… Não sou a melhor pessoa para defender alguém, há de convir.

Katheryn acenou com a cabeça.

— Verdade, ele teria te imobilizado no chão antes que você dissesse a palavra “popô”. — ela levou uma cotovelada de Aldrick.

— Ele parece uma ótima pessoa. Se fosse necessário, ele já teria feito alguma coisa pra vocês antes. — confortou o loiro. — Só digo para sempre manter um olho aberto, se você não o conhece. Serena é uma garota impressionável, eu sinceramente não quero estar presente quando ela perceber que os contos de fadas não existem.

Calem concordou, entristecido, olhando para a expressão encantada de sua prima ao longe.

Enquanto isso Charlie e Serena passaram a observar uma fonte, exatamente na metade da rota, onde eles se encontravam naquele horário — cerca de três da tarde. A fonte era bem mais bonita que a de Santalune. Dourada e feita de pedra, tinha dois Horseas que “cuspiam” jatos de água que se cruzavam , e um Clamperl no centro com grande quantidade do líquido escorrendo embaixo de si.



O silêncio só não era total pelo som da água caindo e escorrendo. Os olhos de Serena brilhavam com a cena, parecia surpresa por ver o líquido transparente fazendo uma parábola no ar. Percebeu que a água era muito mais do que o simples galão de água, ou as torneiras de sua casa. Ou até mesmo os rios. Ela quebrou aquele som persistente:

— A água não é perfeita? — perguntou, suspirando.

Charlie direcionou seus olhos a ela, percebendo seu olhar encantado.

— Perfeita? — respondeu com outra pergunta.

— Ela é tão neutra que é perfeita. Transparente, líquida, faz bem pra saúde… Ela está em todos os lugares. — explicou. Charlie ficou um tanto quanto sem resposta.

— Como você consegue achar que tudo é perfeito, princesa? — ele sorriu.

A garota se virou para ele, séria:

— Já disse para você parar de me chamar assim! — retorquiu. — E por que eu não acharia que tudo é perfeito? Você não acha tudo perfeito.

Ele ficou em silêncio por uns instantes, como se pensasse numa resposta adequada.

— Nem todos provaram de todas as coisas boas da vida, algumas só tiveram a oportunidade de ver seu lado… Obscuro… Sabemos interpretar que nem tudo é tão perfeito assim. Tudo pode ser tão cruel como bem pode ser perfeito.

— Ora, é apenas questão de ponto de vista. — falou. — Nada é igual a nada, Charlie, cada célula é única, cada…

— Na realidade não, — interveio Calem, de longe. — elas se reproduzem por mitose, que consiste em uma cópia do material…

— A conversa não chegou aí! — gritou Charlie, calando-o. — Prossiga, por favor.

— Cada instante, cada momento é único. Somos montinhos de coisas únicas que nos fazem ainda mais únicos. — ela explicava com gestos, empolgada, como uma criança contando uma descoberta. — Nenhuma situação é idêntica a outra, isso é perfeito. Todos somos perfeitos, você não acha? — perguntou, no final.

Charlie evitou encará-la nos olhos, certamente incomodado.

— O mundo não é como Santalune, Serena. — respondeu. — Ou como Aquacorde. Ou como sua mansão em Vaniville. Lumiose tem coisas maravilhosas… — fez uma pequena pausa para respirar, e deixou seu tom de voz mais grave. — Mas também esconde muita coisa ruim. O mundo esconde muita coisa ruim.

— Então é só fechar os olhos para as coisas ruins e olhar pelas boas… — falou ela baixinho, bem como uma criança, quase tendo seus sonhos destruídos. — Não é?

Charlie fez uma pausa tão grande que de fato a assustou. Foi como se seu cérebro estivesse trabalhando a mil, mesmo que com aquela expressão séria no rosto. As infinitas de possibilidades para responder, as inúmeras verdades que poderia dizer. Mas sua sensatez escolheu as palavras, que enfim quebraram o som da água caindo ao fundo. Foi a frase mais sinistra que Serena já ouvira de Charlie, mesmo sendo exatamente aquilo que ela queria ouvir. Não pelas palavras, porém pela relutância em dizê-las, pelo tom de voz carregado de negação, pelos olhos que se recusavam a encará-la. E ela foi:

— Sim, você está certa.

Eu senti várias coisas naquela hora. Imaginei muitas coisas que Charlie poderia estar pensando, e certamente “você está certa” não era uma delas. Naquele dia eu não teria como entender o motivo dele estar mentindo, não imaginava que poderia ter dito tantas coisas piores que aquilo. O porquê de ser melhor concordar comigo do que falar a verdade. Mas o que eu descobriria pouco tempo depois era que eu nunca estivera tão errada em toda a minha vida quanto naquele momento.
...

Já era entardecer, e segundo Katheryn, seu tornozelo aparentemente estava melhor. Com um dos braços apoiados nos ombros de Charlie e outro em Aldrick, ela tentou caminhar. Não demorariam muito mais para chegar em Lumiose, no máximo uma hora, segundo os cálculos feitos. Serena ainda estava hesitante desde sua conversa com o companheiro, que sentia-se culpado pelo silêncio da garota.

A menina parou para dar uma última olhada nas flores avermelhadas que a atraiam. Estava mais escuro, o céu todo tingido em tons que variavam entre o laranja e o preto. Ainda assim, ela conseguiu reparar em um mesmo pontinho branco se esquivando e voando pela natureza. A criaturinha parou por um instante, ela conseguiu ver: Era de novo o mesmo Flabébé.

— Ele voltou. — disse ela com certa empolgação.

— Pode deixar, Serena. — falou Charlie dando um passo à frente e deixando Katheryn aos cuidados de Aldrick. — Desta vez ele não me escapa.

— Idem. — concordou Calem.

— Não, meninos. — repreendeu ela apoiando sua mão no peito dos rapazes. — Agora é a minha vez.
Com toda a doçura do mundo que apenas Serena conseguia usar, ela caminhou a passos lentos como os de um anjo até o Pokémon. Em seguida, se agachou e arrancou uma das flores vermelhas do chão. Cheirava bem, pensou. Estendeu-a, como em um símbolo de trégua, e lançou um sorriso verdadeiro. Não sabia se funcionaria, mas se de fato as fadas escolhessem as pessoas com alma pura, Serena era hábil como ninguém a comandá-las.

Viu o Flabébé se aproximando gradativamente. Ela não precisou dizer sequer uma palavra, ou fazer mais nada. Foi simplesmente natural. Os amigos chegaram a estranhar um pouco que algo tão básico e tão óbvio fosse mais efetivo que persegui-lo: Se o Pokémon gosta de flores, por que não selar um acordo de paz oferecendo-lhe uma flor?

E, de fato, a pequena fada pousou na flor, se segurando em seu pistilo. Era difícil deduzir se ele estava feliz, mas as circunstâncias indicavam que sim. Sem mover a mão com a flor, puxou de sua bolsa uma Pokébola e aproximou da criaturinha com delicadeza. Sequer precisou tocá-lo para que adentrasse a esfera bicolor, e selasse a primeira captura de Serena em sua vida. O primeiro de muitos Pokémons, esperava ela. Quando se virou para os amigos, tinha um sorriso infantil que todos apenas aguardavam ela fazer. Um sorriso que conseguia ser mais belo que o pôr-do-sol. Mais puro que a água.

— Eu capturei mesmo um Pokémon! — ela comemorou animada.

E, após aplausos, seguiram para seu próximo destino: Lumiose, onde surpresas bem maiores que esta os aguardavam.

Entradas similares

0 Comentarios