Capítulo 14



Capítulo 14
Fazendo Arte



Serena levantou-se em um pulo. Não precisou ficar encarando o teto e se convencer de que sair da cama era a melhor coisa a se fazer, como nos últimos dias. Não, desta vez foi como sempre: Uma espreguiçada gostosa, e uma reflexão de que, naquele dia, tantas coisas poderiam acontecer.
Charlie ainda adormecia em uma cama ao lado da garota, que ele insistira em aproximar, para caso a menina precisasse de qualquer coisa. Calem, devido aos acontecimentos da noite passada, ainda jazia dormindo em uma cadeira forrada. Depois ainda vem me reclamar de dor nas costas, igual a um velhinho. A menina foi ao banheiro silenciosamente e lavou o rosto, encarando no espelho aqueles dois olhos grandes e azuis, enquanto os cabelos cor de ouro lhe caíam em mexas brilhantes. Apesar de não ser vaidosa, Serena era linda, mesmo quando acordava.
Vestiu seus trajes usuais e deixou o quarto em que estava antes. A princípio se surpreendeu, porque já havia esquecido que desta vez não se hospedaram no Centro Pokémon, e sim em um hotel. O piso bicolor negro e branco contrastava com as paredes cor de creme. Tudo tinha uma aparência, de certa forma, antiga, e ao mesmo tempo acolhedora. Quando desceu as escadas, ouviu um homem que cuidava da recepção a chamando:
— Senhorita Windsor?
Ela focou o olhar no rapaz e se aproximou de um balcão onde ele estava. Ele pegou um pequeno envelope de papel e a entregou. Serena agradeceu e foi em direção à porta. Ao sair, leu acima de sua cabeça “Hotel Camphrier”. Assim que se viu sozinha, fitou o envelope, lendo instantaneamente a frase “Vaniville Town”. Em um ato automático, atirou a carta na primeira lixeira que encontrou, engolindo em seco.
Camphrier era uma das cidades mais antigas de Kalos. Protegida por muros quase completamente, permitia apenas uma entrada, na Rota 5, e uma saída, na Rota 7. As casas tinham uma arquitetura antiga, e percebia-se que grande parte das pessoas que habitavam a cidade eram famílias simples, muitas vezes de idosos.
Serena seguiu um caminho de terra e pedras, observando as belezas de Camphrier. Para ela, era fascinante aquele toque histórico do lugar. Ouvira em algum momento que lá estava o Shabboneau Castle, um ponto realmente milenar daquela cidade, e que ela esperava visitar.
Outra coisa que realmente a agradava era a natureza. O chão não era asfaltado, era apenas grama, pedras, e terra. Além dos murmúrios das pessoas nas ruas pouco movimentadas, apenas ouvia o som do riacho mais ao norte da cidade, e o som de Fletchlings sobrevoando.
Seguiu ao sul, onde se deparou com uma outra abertura nos muros de Camphrier. Atrás, um caminho agradável entre árvores chamou sua atenção. Serena seguiu por ele, sentindo o gostoso aroma de natureza, enquanto ouvia mais intensamente o som de água correndo.
Quando chegou ao fim do caminho, estava de frente para um rio límpido, em um local tão calmo quanto não se deparava desde tempos atrás, bem distante do tumulto e a urbanização de Lumiose. Mas não estava sozinha. Havia um senhor abaixado, de frente para um cavalete com uma tela, e alguns materiais ao seu redor. Serena não disse nada, apenas se aproximou furtivamente.
Ele admirava com calma o cenário, enquanto distribuía pelo plano branco pinceladas coloridas certeiras, e ao mesmo tempo sutis. Conseguia copiar com quase perfeição aquela bela paisagem, o que fez a garota admirar-se. Ela ficou alguns momentos observando em silêncio, até ouvir:
— Gosta de pintura, mocinha? — disse o senhor, fazendo Serena corar ao pensar que ele já percebera a presença dela ali há algum tempo.
O senhor se virou, e ela conseguiu perceber que junto dele estava um Pokémon curioso, do tipo que ela nunca havia encontrado. O Pokémon também lembrava um artista, com uma pelugem que se parecia com uma boina de pintor. Sua esguia cauda tinha na ponta um conjunto de pelos semelhante ao de um pincel — e que, aliás, estava sendo usada naquele momento com a mesma  finalidade.



— Gosto de admirar pinturas, sim senhor. — respondeu Serena com timidez.
O senhor sorriu.
— Bem, isso é ótimo. — disse. — Mas quis dizer se você gosta de pintar.
— Ah, sim, eu gosto. — respondeu, correspondendo o sorriso. — Embora tenha pintado muito pouco. Acho que não levo tanto jeito para isso.
— Ora, mas é claro que leva. — o senhor tocou-a nas costas. Era um pouco mais baixo que Serena. Puxou uma nova tela e entregou nas mãos da garota, junto de um pincel, e ofereceu sua paleta de cores. — O problema é que as pessoas dizem que a arte é um “dom”.
— E o senhor acha que não é? — indagou.
— Ora, cada um tem características que determinam se tende a aprender mais rápido ou mais devagar, — falou, olhando-a no fundo dos olhos. — mas isso não quer dizer muito. Saber pintar bem, ou fazer qualquer outra coisa, é apenas uma questão de esforço e dedicação!
Serena sorriu.
— E o que está esperando? — ele pegou na mão dela, que segurava um pincel, e direcionou à tela. — Lembre-se sempre: do fundo para a frente, com pinceladas rápidas e curtas.
O líquido colorido aos poucos começou a rabiscar a tela branca, fazendo pequenos traços. Após algumas pinceladas o senhor largou as mãos de Serena para que ela continuasse sozinha. Aos poucos preenchia o riacho cristalino que refletia o céu com um tom de azul celeste. O senhor parecia satisfeito.
— Vou buscar um outro pincel, e volto em um instante. — disse ele, com uma risadinha.
A menina alternava o olhar entre a tela e a paisagem. Claramente não conseguia copiar com perfeição, uma vez que suas mãos tinham certa ansiedade nas pinceladas, mas estava ficando satisfeita. Para quem não pintava havia meses, e sequer fizera um esboço, estava de bom tamanho.
...
O castelo era rodeado por água de todos os lados, tendo apenas como forma de entrada uma ponte levadiça. O garoto a atravessou, parando por um momento para admirar a bela arquitetura da construção antes de, enfim, adentrá-la.


Por dentro, as paredes também eram de pedra, compridas, mas com mínimos detalhes e cuidado. Havia uma atmosfera diferente, talvez pela iluminação média, feita apenas por alguns lampiões. O cheiro era curioso: Um aroma de antiguidade, mas não de poeira e mofo. Se a história tivesse algum cheiro, certamente seria aquele. Algumas outras pessoas também observavam o castelo, imaginando que tipo de passado este guardava.
Calem ainda estava um tanto perdido. Embora, por um lado, tomasse todo o cuidado para não tocar em nada, — só Arceus sabe que tipo de bactérias devem viver em um castelo de alguns milhares de anos — não conseguia disfarçar seu espanto. Aquele lugar havia sido construído bem antes das máquinas de construção modernas, e era inúmeras vezes mais belo que qualquer outra construção contemporânea por alguma razão.
— É surpreendente, não é?
O rapaz virou-se, inevitavelmente, para o lado, deparando-se com uma senhora. Ela não o encarava, e sim fitava as paredes, enquanto suas mãos tocavam-na. A mulher tinha cabelos longos enegrecidos, e vestia trajes pouco comuns, com amuletos que mais lembravam dentes, talvez. Dentes de algo grande e carnívoro. Apesar da simpatia em sua face, algumas rugas marcavam sua idade. Ele, entretanto, não conseguia observar mais àquela iluminação.

— É. — foi a única coisa que conseguiu dizer, antes de perder-se novamente na admiração pelo lugar.
Fitou o teto — metros acima de sua cabeça. Havia um andar acima também, que poderia ser visitado da mesma maneira.
— Kalos possuí marcos históricos tão… Maravilhosos. — disse novamente a senhora, fazendo uma pausa, enquanto mudava o foco do olhar. — Sua história, em si, já é maravilhosa.
Calem concordou, um pouco tímido.
— Você conhece a história desse lugar, meu jovem? — indagou a senhora, virando-se para ele. Ela lançou um sorriso largo e reconfortante.
— Não, senhora. — ele disse, sorrindo de volta um pouco tímido.
Ela caminhou vagarosamente, tocando a mão algumas vezes nas pedras frias das paredes, algumas vezes no mármore dos acabamentos. Calem a acompanhava discretamente. Aqueles de mais idade não tinham pressa para falar, e embora algumas vezes isso pudesse ser ruim para os mais jovens, ele meio que gostava daquela tranquilidade.
— Um rei de grande poder aquisitivo construiu este castelo e viveu aqui, — falou, em seu ritmo. — mas não pense que era esnobe, porque ele muitas vezes doava seus pertences para os necessitados. — ela disse. — Antes de falecer, em seu leito de morte, ele doou todo o resto de suas coisas, e seu castelo foi mantido como uma forma de reconhecimento e agradecimento pelos moradores de Camphrier.
Calem não disfarçou a surpresa. Por um momento sentiu-se um tanto culpado pelo fato de nunca ter feito algo tão prestativo quanto aquele rei fizera. Em seguida, lembrou-se de Charlie, e tudo o que fizera por ele, então percebeu que até que não era tão mesquinho assim.
— A senhora vive aqui? — perguntou o rapaz. — Em Camphrier?
Ela sorriu novamente, revelando algumas marcas de expressão.
— Ora, não, não. Quero dizer, até tenho um chalé aqui, mas sou apenas uma apreciadora de história e mitologia. — ela deu uma risada cansada. — Sou de Sinnoh, e meus avós me contavam muito sobre esses mitos.
O garoto assentiu.
— E você, rapazinho? É um pesquisador? — indagou. — É raro encontrar jovens interessados em assuntos antigos. Hoje vocês só querem saber de tecnologia, não gostam de apreciar as belas velhariasde sua região. — brincou ela.
Calem titubeou.
— Não, na verdade sou um treinador. — respondeu, recebendo um olhar surpreso e ao mesmo tempo contente. — Mas sim, eu me interesso por esses assuntos. Há tantas coisas fascinantes para conhecer. Li muito antes de sair em uma jornada, só que é a primeira vez que vejo com meus próprios olhos.
A senhora assentiu, contente.
— Um treinador? Isso é ótimo!
Ele hesitou por um momento.
— Qual o problema, meu jovem? — perguntou.
— É que não sou exatamente um bom treinador… Tenho certo problema com meus Pokémons. — falou ele, tentando disfarçar certa vergonha.
— Quantas insígnias você tem? — indagou ela.
— Uma. — respondeu. — Só consegui uma batalha até agora, o Ginásio de Lumiose estava desativado.
Ela soltou uma risada discreta.
— Ora, você é apenas um iniciante. — brincou ela. — É jovem, ainda está aprendendo. Não se preocupe com isso, leva tempo até compreender os Pokémons, e a usá-los em batalhas.
— E você tem alguma dica para mim? — perguntou.
A senhora respirou fundo, aproveitando para rolar os olhos pelo castelo mais uma vez. Calem a acompanhou, vendo as pessoas passarem, admirando aquele monumento histórico.
— Que graça teria contar, se a melhor professora é a experiência própria? — falou, abrindo novamente aquele mesmo sorriso.
A senhora começou a se afastar. Antes que Calem pudesse rebater qualquer coisa, ela virou-se na direção dele novamente:
— Mas se quer uma dica, lembre-se que seus Pokémons não são equipamentos de batalha. Eles são seus soldados, e vocês estão juntos na mesma luta. — disse, acenando. — São seus amigos.
Calem assentiu, engolindo em seco. Quando viu que ela se aproximava da porta, a ponto de já estar sendo iluminada pelo sol proveniente da porta, gritou:
— Você é treinadora? — perguntou, alto.
Ela parou de andar.
— Pode-se dizer que sim. — ela parecia estar rindo. — Tenho certeza que ainda nos encontraremos, e quero que me prometa quando isso acontecer, faremos uma das melhores batalhas que Kalos já viu.
Parecia uma promessa simples, mas Calem a enxergou como algo complexo. Como prometer algo nesse nível? Talvez tivesse sido apenas um exagero por parte daquela velha senhora, cujo nome ele sequer sabia.
— Eu prometo… — disse, as palavras saindo não tão certas quanto ele gostaria.
Ao ouvir aquilo, ela avançou para a saída. Calem, por algum motivo, sentiu necessidade de ir atrás dela. Andou rápido para a procurá-la e saiu do castelo, mas seus olhos não a avistaram em lugar algum. Porém, quando olhou para cima, podia jurar que viu alguma coisa voando em alta velocidade.
...
Serena aproveitava o momento de inspiração. Fazia muito tempo que ela não treinava pintura, desde a época que fizera aulas particulares em sua mansão. Agora, entretanto, retratava uma paisagem que realmente admirava, e não apenas as mesmas imagens estáticas de sua antiga casa.
Parou um instante para observar o ambiente, desta vez reparando que o Pokémon ao seu lado também pintava. Por mais que não fosse humano, parecia ter muito mais prática, pintando mais agilmente e com resultados até melhores. A criatura também parou por um instante e fitou a garota. Ela disse:
— Puxa, você pinta muito bem. — e sorriu em seguida.
O que não esperava foi a quebra de silêncio que sucedeu:
— Eu sei, obrigado.
Serena tomou um susto, atirando-se para trás e quase derrubando o cavalete.
— V-você fala? Eu não sabia que Pokémons podem falar!
A expressão estática do Pokémon permaneceu.
Só podemos fazer isso com pessoas especiais, por isso é difícil ver Pokémons falando
— Me desculpe, mas você tem uma voz muito engraçada, senhor Pokémon. — ela riu, abaixando para ficar na altura da criatura. — E como você fala sem mexer a boca? E eu sou especial mesmo?
É um truque velho de Pokémons. — disse de maneira debochada. — E é claro que é especial, princesa.
A menina sorriu.
— Puxa, eu não imaginava que… Espera, você me chamou de “princesa”? — ela ficou de pé novamente e virou para trás — Eu sei que é você, Charlie.
O garoto apareceu de onde estava escondido, rindo. Ela não evitou uma risada discreta também, enquanto o Pokémon apenas observou tudo aparentemente sem entender ao certo o que estava acontecendo.
— Teria sido muito mais divertido fazer isso se fosse com o Calem. — refletiu o rapaz, fazendo-a rir mais.
 Naquele momento o senhor retornou vagarosamente com alguns artigos em mãos: Mais uma tela, alguns pincéis e tintas em uma pequena maleta. Ele se aproximou de ambos, fazendo um aceno de cabeça ao ver Charlie. O rapaz cumprimentou-o de maneira educada.
— Oh, parece que temos mais uma companhia! — exclamou o senhor.
O velho arrumou suas coisas em uma posição adequada para a arte, refletindo por um momento.
— É o seu namorado, minha jovem? — disse com um sorriso, se virando para Charlie.
Naquele momento ambos fizeram uma expressão de certa surpresa. Charlie não evitou o sorriso de alguém que estava se divertindo com aquilo, especialmente ao ver a reação de Serena, que corava como nunca visto antes.
NAMORADO?
— N-não, senhor… — foram as únicas palavras audíveis que ela conseguiu dizer. — Somos apenas amigos.
O senhor sorriu, não parecendo ter se importado muito com a resposta dela, logo voltando a pintar, agora na nova tela que trouxera. Serena aparentemente evitava encarar qualquer um até que sua vermelhidão passasse, de forma que Charlie a provocasse, tentando atrair sua atenção:
— O Calem disse que iria passar naquele castelo, e que deveríamos encontrá-lo para almoçar exatamente meio dia e trinta e sete. — anunciou o rapaz, dando o motivo de ter aparecido.
A garota acenou com a cabeça, novamente sem fitá-lo nos olhos, até ter que perguntar:
— Por que trinta e sete?
— Ele já descontou os atrasos.
Calem.
Serena avisou o senhor que precisaria se retirar, um tanto envergonhada, já que ele acabara de buscar novos materiais. O velho, todavia, não pareceu se importar. A menina despediu-se do Pokémon, com um aceno, recebendo um aceno de volta do mesmo. Ela esperava retornar lá o mais breve possível.
Retornando para o centro da cidade, era possível notar maior movimento àquele horário. A população de Camphrier era normalmente mais representada por idosos e crianças. Não havia muitas modernidades na cidade como havia em Lumiose, os mais novos brincavam na rua descalços, melados de suor, ouvindo seus pais ou avós os chamarem para almoçar.
Serena admirou por um momento aquilo, a simplicidade daqueles moradores. Haviam passado por várias cidades pequenas até então, mas era algo que sempre a surpreendia. Não que não fosse grata por todos os benefícios que tivera na infância, mas aquela humildade era admirável.
— Somos? — a voz de Charlie quebrou seu momento de transe.
— O quê? — perguntou ela um pouco atordoada, tentando se localizar.
— Apenas amigos? — indagou ele, com um sorriso malicioso no rosto.
A menina parou de andar, fitando-o. Ele poderia jurar que ela voltava a ficar ligeiramente corada — na realidade, essa era justamente a intenção dele. — mas não tinha certeza, porque ela cobriu o rosto com as mãos.
— Ah, o que aquele senhor falou… — suspirou ela. — Claro, Charlie. — disse, por fim, sem hesitar. — Você achou que…
— Não, claro que não. — ele a interrompeu.  — Você apenas pareceu ficar… Assustada quando ele perguntou. Com vergonha, talvez. Você teria vergonha de me namorar?
— Não, Charlie, não me entenda errado… — respondeu ela, explicando-se. — É só que… Eu não estou pronta para namorar.
Alguns passos sucederam até que ela continuasse falando.
— A Kath estava me contando sobre esse negócio de “ficar”, mas não consigo me ver assim, sabe? — disse, tímida. — Um dia eu espero encontrar a pessoa certa.
— Um príncipe encantado. — sugeriu ele, levantando inevitavelmente o tom de voz.
— Não, é só que… — ela parou de andar novamente, tentando encontrar palavras. Seu olhar vagava entre as casas e o céu, nunca atingindo os olhos de Charlie. — Eu não quero apressar as coisas. — falou. — E se fosse eu mesma a escolher, certamente o faria somente quando estivesse pronta. Não por pressa.
Ele concordou com a cabeça.
— Acho tudo isso lindo, mas… Como assim “se eu fosse escolher”? — indagou, com um olhar desconfiado.
— Não foi isso que eu… Ah, deixa pra lá. — ela falou, voltando a andar e o deixando para trás.
— Princesa, me explique. — pediu ele.
Charlie andou atrás dela, tentando chamar sua atenção, até enfim segurá-la com força pelo braço, para que parasse. O reflexo que a menina teve foi instantâneo: puxou o braço de volta com agilidade, como se tivesse encostado em uma chapa fervente. A expressão em seu rosto foi de susto, e Charlie, arrependido, imaginou se a reação não tinha algo a ver com os traumas de Marc e seus aliados.
Permaneceram assim por curtos instantes, se encarando, até que ela baixasse o olhar, envergonhada, e recuasse novamente:
— Acho que estou com dor de cabeça. Vou me descansar, ok? Diga para o Cal que eu desço para comer mais tarde. — falou, com a voz delicada e baixa.
— Serena…
Não era por mal, mas aquele assunto era apenas muito delicado para mim... Sempre vi nos contos de fada as princesas terem seus finais felizes ao encontrar o príncipe, e de certa forma acho isso um pouco bobo, sabe? Acho que sim, o amor, se for como dizem, deve mesmo nos trazer toda essa alegria... Mas como resumir nossa felicidade em apenas uma pessoa? Acho que primeiro preciso estar satisfeita comigo mesma para só então encontrar alguém. E ele não precisa ser um príncipe encantado.
Ele não tentou pará-la, tampouco segurá-la desta vez. Algumas vezes era melhor deixar passar, que logo Serena se recuperaria. Ele havia aprendido isso, de certa forma. Ela não era do tipo que guardava as mágoas por muito tempo, mas ele sempre se incomodava quando isso ocorria. Era muito melhor vê-la sorrindo.
Chegando no local combinado, encontrou Calem, aguardando de certa maneira impaciente sua chegada. O rapaz checou o relógio com uma cara feia, mas aparentemente tentou ignorar o possível atraso do companheiro, tentando ser mais simpático. Charlie admirou essa atitude. Todavia, Calem semicerrou o olhar, virando-se para os lados:
— Onde está a Serena? — perguntou.
O outro colocou as mãos nos bolsos.
— Ela disse que precisava descansar. Acho que somos só você e eu.
Calem encarou-o com seriedade por alguns instantes, aguardando — talvez desejando. — que ele avisasse que era apenas uma brincadeira, mas Charlie nada complementou.
— Que maravilha. — respondeu Calem ironicamente. — Nada me deixaria mais feliz.
Ambos retornaram para o hotel. Charlie esperava encontrar Serena no hall, mas pelo visto ela havia mesmo subido para o quarto. Ambos seguiram para o restaurante, onde refeições estavam sendo servidas àquele horário. Podia-se servir com os pratos já preparados, ou era possível fazer pedido de outros pratos.

Os dois procuraram uma mesa e se sentaram, chamando o garçom e fazendo o pedido. Calem demorara algum tempo para selecionar a melhor opção pelo cardápio, enquanto Charlie apenas pediu para ser “surpreendido” pelo Chef. O local tinha uma música ambiente tocada ao vivo por um pianista, que era atravessada pelo som dos talheres batendo e as conversas paralelas.
O silêncio permaneceu por um tempo, sendo cortado vez ou outra por perguntas bobas para puxar assunto, mas que normalmente eram respondidas com “é” ou “nem me fale”. A comida não tardou a chegar, e ao ter seu prato servido, Charlie ensaiou por alguns momentos antes de finalmente começar a falar, enquanto provava da comida. Estava deliciosa.
— Calem… Eu estava conversando com a Serena hoje e…
— A da direita. — disse Calem sem encará-lo ao certo.
— O quê?
— A faca da esquerda é pra alimentos mais macios. — explicou. — A da direita é que se usa pra cortar carne.
Charlie o encarou por alguns momentos com uma expressão confusa, tentando entender exatamente o propósito do comentário, até se dar conta de com quem conversava, e que não deveria ter achado tão estranho.
— Se opinar nos meus talheres de novo, vou comer com a mão na próxima. — respondeu ele, sem muita simpatia, recebendo um revirar de olhos em resposta. — Então, ela falou algo sobre “se ela pudesse escolher com quem namorar”. O que significa?
Calem continuou mastigando em silêncio por alguns instantes antes de responder de fato, sem esboçar qualquer reação de espanto ou reprovação.
— O pai da Serena é um homem um tanto tradicional, Charles. — ele fez uma pausa, olhando para o teto, como se estivesse tento uma recordação. — O amável tio Stevan.
Charlie permaneceu ouvindo atentamente, enquanto o companheiro tomou um gole de sua bebida, sem qualquer pressa. Os dedos de Charlie dançavam nos talheres, como se estivesse ansioso por uma resposta, mas soubesse que apressar o amigo não resolveria. Calem, em seguida, focou o olhar nele:
— Ele exige escolher com quem a Serena deve se casar, um dia. — falou, novamente sem qualquer alteração de tom de voz, com tamanha simplicidade como se estivesse fazendo um outro pedido para o garçom.
Charlie largou os talheres e bateu na mesa inevitavelmente, recebendo um olhar fuzilante do amigo, de forma que se desculpasse discretamente. Em seguida balbuciou algumas palavras, tentando formar uma frase:
— O quê? Esse cara é louco? Isso não é ser tradicional, é tentar reviver o século retrasado! — falou, aumentando o tom de voz.
— Até que não é uma má ideia a dele, porque pelo visto Serena deve ter dedo podre para namorados. — balbuciou Calem enquanto cortava a comida.
— O que isso deveria significar? — indagou Charlie, olhando torto.
O outro levantou o olhar, enfim o fitando.
— Nada, eu estava pensando alto. Sim, é uma besteira. — admitiu. — Mas o que posso fazer?
— Falar para ele que está sendo um idiota, talvez? — sugeriu ele com certa ironia.
— Você não o conhece, Charles. — respondeu, de maneira direta. — Ele não é exatamente o tipo que gosta de ser contrariado. Eu mesmo tive que fazer certo esforço para convencê-lo a deixar Serena sair em uma “jornada”. — fez aspas com os dedos.
Charlie aproximou a cabeça, interessado.
— E o que você disse para ele?
— Por Arceus, Charles, isso é um interrogatório? — Calem largou os talheres, o encarando. — Não é relevante. Se ele acha que tem esse direito, pois bem. Ela é quem deve provar o contrário. — tomou mais um gole de sua bebida. — Mas eu não me surpreenderia se em breve ela estivesse se casando.
— Como você pode falar uma coisa dessas? — questionou Charlie, de certa maneira incrédulo.
— Ela acabou de fazer 15 anos. Nessa idade muitos passam a considerar oficialmente da menina uma mulher. A festa exagerada que Stevan exigiu foi para anunciar publicamente que sua filha estava crescida. — explicou-lhe.
— Ele disse isso?
— Um palpite meu.
Charlie pausou um momento para refletir, jogando a cabeça para os lados como quem afasta uma ideia absurda.
— Esse cara é maluco.
Sem dizer nada, Calem posicionou os talheres em uma determinada posição no prato vazio, e em seguida limpou os lábios com um guardanapo de pano.
— Se não se incomoda, Charles, vou ver como ela está. — falou, se levantando.
— Também vou. — disse ele, repetindo o gesto.
— Não, é melhor não. — repreendeu-o, antes que se colocasse de pé. — Depois de todas essas perguntas suas, presumo que ela se sentiu mal antes por sua causa. Então é melhor deixar que dessa vez eu resolva.
O garoto estava pronto para contrariá-lo, mas mais uma vez percebeu que talvez fosse melhor abandonar sua vontade em prol de Serena. Ficou então lá, sentando na mesa, refletindo sobre a conversa anterior, tentando afastar a imagem de Serena vestida de noiva, chorando de tristeza no próprio casamento.
...
Por que me atraio tanto pelo som da água correndo? Não aquele barulho de quando você abre uma torneira, e sim o som que se ouve ao ficar perto de um rio. Sinto uma paz tão grande nesses momentos... É um som da natureza, um som tranqüilizante. E, sem dúvidas, excelente para inspiração.
Serena estava novamente naquele mesmo lugar onde começara o dia. Já era tarde, faltava pouco para o sol se por. Havia conseguido pedir para aquele senhor a tela na qual começara a pintar, e prosseguiu o desenho, mas fazendo algumas modificações. Agora não apenas copiava o desenho, mas deixava a imaginação voar, deixando um ar de certa misticidade e talvez dum toque de abstração.
Não estava sozinha. Aquele mesmo Pokémon — que descobrira que era um Smeargle. — também terminava sua própria pintura. O traço da criatura na pintura era magistral, como de alguém que praticara muito. Era um contraponto para os que acreditavam que Pokémons tinham habilidades apenas para batalhar.
Serena fitou o que o Pokémon pintava, agachando para ficar em sua altura. Ele a encarou de volta:
— Copiar os desenhos é muito legal… Mas você já tentou pintar algo original?
Ele inclinou a cabeça em direção ao ombro, pensativo.
— Eu acho que me saio melhor pintando algo que eu mesma imagino… — falou a menina, observando sua própria pintura.
— Mesmo quando tentamos copiar alguma coisa, parece que colocamos nossas impressões e sentimentos… — ela falou, observando seu quadro, repleto de rabiscos rápidos e talvez agressivos, incertos. — Acho que essa é a maior beleza da arte.
Ela sorriu para ele novamente.
Se isso que pintou é o que realmente imagina, então você tem uma mente bem turbulenta.
A garota se levantou, assustada. Olhou para a direita e para a esquerda, fitando em seguida o Pokémon novamente.
— Charlie, é você denov… Não, a voz está diferente... Oh, meu Arceus, — ela cobriu a boca com as mãos, totalmente surpresa. — será que…
— Serena, você está bem? — perguntou Calem, o verdadeiro dono da voz, alguns passos atrás da menina.
— Cal, que susto… — ela esfregou a palma da mão no rosto. — Como me achou?
— Procurei a tarde toda, na verdade. — Você disse que ia descansar. Achei que fosse em uma cama, e não aqui.
Ela deu uma risadinha discreta.
— Eu só não estava no clima para ir com vocês.
— Eu sei. — falou, tocando-lhe no ombro. — Charles conversou comigo sobre o que você disse para ele mais cedo.
A menina virou de costas, dando alguns passos com incerteza, até encará-lo de volta
— Você contou a verdade?
Ele assentiu com a cabeça. Ela suspirou.
— Eu não quero ninguém especial agora, Cal… Tampouco alguém que meu pai escolher. — falou.
— Ele não vai fazer isso agora, tenho certeza. — disse o rapaz, aproximando-se dela. Segurou em suas mãos, para evitar que ela continuasse mexendo-as freneticamente. — E quando fizer, daremos um jeito.
— Tem certeza? — questionou ela, incerta.
— Se estamos aqui é porque convencemos ele de algo uma vez. — falou Calem, sucintamente. — Quando for preciso, o convenceremos novamente. — fez uma pausa. — Eu prometo.
Ela moveu as mãos levemente para que ele as soltasse, e em seguida o abraçou. Dessa vez ele não reclamou, apenas a abraçou de volta.
— Você é o melhor primo do mundo.
— Eu sei. — falou ele. — Agora podemos nos afastar desse Pokémon com a cauda toda suja de tinta?
Ela deu risada, concordando. O Smeargle novamente inclinou a cabeça, confuso, enquanto Serena balançava um outro pincel de tinta, fazendo Calem se afastar cada vez mais, temendo ser sujado.
Ao perceber que o sol já se punha, Serena finalizou sua obra de arte, fazendo uma assinatura no canto direito do quadro. Observou a alguns passos de distância, satisfeita com o resultado. Em seguida, guardou tudo, com o auxílio do primo, e ambos, acompanhados do Pokémon, dirigiram-se até a casa do senhor.
As luzes de fora da casa já estavam acesas quando eles bateram na porta. O velho pediu para que eles entrassem, mas aceitaram apenas para depositar os pertences de volta, enquanto o Smeargle adentrou seu lar sem pensar duas vezes. Ela entregou-lhe o quadro, de maneira que ele a encarasse com surpresa:
— Que bela arte! — elogiou, observando-o. — Mas espere, não vai levá-la?
— Somos viajantes, senhor, não teremos onde deixar… — ela sorriu. — Além disso, quero que fique com ela como agradecimento por me fazer lembrar como fazer arte é legal. — brincou.
Ele deu uma risada, um pouco sem graça pelo agradecimento.
— Espere um momento.
O velho afastou-se por um momento e entrou em um quarto. Era possível ver alguns outros Smeargles transitando pela casa. Os primos observaram o que podiam da porta, até que o senhor retornasse, a passos curtos.
— Nesse caso, se posso presenteá-la também, — falou, se aproximando. — quero que leve ele. — disse, apontando para aquele mesmo Smeargle.
Serena sorriu e ficou um pouco em silêncio, sem saber ao certo o que responder.
— Não, senhor, não posso aceitar! — falou, enfim.
— Não que eu ache que Pokémons são moedas de troca, é claro. — ele riu. — Mas esse Smeargle é o mais jovem da nossa criação, e já deve estar um tanto exausto desse mesmo lugar. É bom respirar novos ares para que a inspiração chegue, certo? — brincou, com uma outra risadinha.
A menina sorriu.
— Bem, eu o entendo, então. — ela agachou mais uma vez em direção ao Smeargle. — Você gostaria de vir com a gente?
O Pokémon inclinou a cabeça novamente, até que enfim acenou com a cabeça. Novas paisagens prontas para serem retratadas o aguardavam, afinal de contas. E Serena aumentava ainda mais o seu time.
...
Pensando que Serena estivesse mesmo no quarto, Charlie ainda não subira, e havia passado a tarde toda na recepção do hotel. A verdade é que estava sem saber o que dizer ao certo para a menina. Naquele momento estava sobre o balcão do recepcionista, sozinho, enquanto mexia em um enfeite que chamara sua atenção. Discretamente, puxou o objeto em direção a seu bolso.
— O que está fazendo? — perguntou o recepcionista, retornando para seu posto.
— Hã? — respondeu, assustado. — Ah, nada. Estava meio sujo, então estou limpando. — disse, esfregando o objeto na própria roupa.
O moço fez uma expressão de descrédito, mas sentou-se em sua cadeira e mexeu em uma pilha de papéis.
— O senhor está hospedado no mesmo quarto da senhorita Windsor, certo? — disse.
Charlie concordou com a cabeça.
— Encontrei isso no lixo, acho que ela descartou acidentalmente… — falou, puxando uma carta. — Pode entregar para ela novamente depois?
O garoto concordou, puxando o envelope. Saiu da recepção, indo para um corredor onde não havia ninguém. Após notar o endereço, não resistiu, e abriu discretamente o envelope, sem rasgar. Tinha prática em fazê-lo.
Havia um texto grande escrito em uma caligrafia elaborada, repleta de termos rebuscados. Charlie tinha dificuldade de entender certas palavras, especialmente em uma fonte tão enfeitada como aquela, mas correu os olhos apenas para alguns termos chave, para entender a ideia central do texto. Após concluí-lo, colocou o bilhete dentro do envelope novamente, dando alguns passos para um lado e para outro, sem saber o que fazer.
— Merda.

 

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